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Misérias e glórias do xadrez (10)
CARLOS LOPES
A manobra era totalmente irregular: Fischer não havia participado do Campeonato
dos EUA de 1969, que era ao mesmo tempo o torneio zonal que escolhia os
participantes americanos no Interzonal de Palma de Mallorca. Portanto, não podia
ir ao torneio e não podia estar entre os possíveis candidatos ao título mundial.
No campeonato norte-americano, três jogadores haviam se classificado para o
Interzonal: Reshevsky, Addison e Benko - naturalizado americano depois que, em
1958, abandonou a equipe da Hungria no Campeonato Mundial Estudantil por
Equipes, na Islândia.
Pela desistência da vaga no Interzonal, Benko recebeu a módica quantia de US$
2.000 da Federação de Xadrez dos EUA (USCF). É quase inevitável o pensamento de
que os desertores do Leste europeu eram muito baratos...
Benko, a julgar pelo incidente de 1962, no Interzonal de Curaçao, onde esmurrou
seu colega de delegação, não era exatamente um amigo de Fischer. (Depois, Benko
tentou fazer o papel, e talvez realmente tenha melhorado suas relações com
Fischer. Porém, falar a verdade jamais foi um mandamento para ele: Benko demorou
cinco anos para desmentir que tivesse recebido dinheiro para desistir do
Interzonal, o que fez em julho de 1975 na "Chess Life & Review", onde afirmou
que os US$ 2.000 eram referentes a serviços como "segundo" de Reshevsky e
Addison. O que não impediu que o presidente da USFC na época do pagamento, Leroy
Dubeck, assim como um ex-diretor-executivo da entidade - isto é, o tesoureiro
de facto - reafirmassem posteriormente que o dinheiro foi em troca da
desistência).
EDMONSON
Ainda não é totalmente claro como foram as articulações para colocar Fischer no
Interzonal. O fato é que desde antes do Campeonato dos EUA (novembro de 1969), o
manda-chuva da USCF, coronel Ed Edmonson, fazia gestões para ter Fischer como
candidato ao título, o que não havia feito no Interzonal de Sousse, nem quando o
jogador norte-americano, apesar de estar à frente dos concorrentes, ameaçou
abandonar o torneio - e, depois, cumpriu a ameaça.
Porém, dessa vez Edmonson, um "oficial de inteligência" da Força Aérea, tentou
convencer Fischer - a correspondência entre os dois é hoje pública – a
participar do campeonato americano, onde seria, certamente, classificado para o
Interzonal: desde 1957, Fischer somente não havia sido campeão dos EUA nos anos
em que não participou do campeonato.
Antes que apareçam acusações de que estamos possuídos por uma "visão
conspirativa da história" (como se as conspirações, as verdadeiras, não
existissem na luta política, e, portanto, na História), esclarecemos que o
coronel Edmonson realmente interessava-se por xadrez. É verdade que a única
partida que conhecemos dele é medíocre, mais ainda considerando as condições em
que foi jogada: numa simultânea contra Koltanowsky, em que este, "às cegas" (ou
seja, sem tabuleiro, apenas com a memória), enfrentou 56 jogadores. Mas,
dirigentes de entidades, sejam de xadrez ou de futebol, não necessitam ser bons
jogadores - senão, o Duailibe e o Eurico Miranda não poderiam chegar a
presidentes do Corinthians e do Vasco.
No entanto, parece que havia alguma razão além das enxadrísticas para que um
"oficial de inteligência", um coronel aposentado da Força Aérea, tenha se
tornado presidente da USCF, e, depois de encerrado o seu mandato, tenha assumido
um cargo criado especialmente para ele – o de "diretor-executivo" - com poderes
reais acima da autoridade formal do presidente.
Não se trata de uma especulação, ou de mera opinião. Vejamos o que diz um dos
sucessores de Edmonson na "diretoria-executiva" da USCF, Al Lawrence, em artigo
publicado na edição de setembro último da revista da entidade, "Chess Life
Magazine".
Lawrence lembra que, pelas regras, era "irremediável" (sic) que Fischer
não podia participar do Interzonal de Palma de Mallorca. E, continua: "O mais
importante é que não havia dispositivo algum do estatuto da USFC que
permitisse substituir por Fischer um dos legitimamente classificados. Dubeck
e Edmonson tiveram que engendrar a criação de uma regra que permitisse
isso. Eles, então, pagaram US$ 2.000 ao GM Pal Benko para sair fora. Além disso,
tiveram que fazer uma artimanha política na FIDE para ganhar o controle da
diretoria (....). Dubeck é rápido em dar todo o crédito às bem sucedidas
estratégias fora do tabuleiro de Edmonson, um coronel aposentado da Força
Aérea" (cf., Al Lawrence, "Fischer: fame to fallout", Chess Life Magazine,
setembro/2007 - grifos nossos).
A "artimanha" para controlar a diretoria da FIDE foi um encontro clandestino de
Edmonson e Dubeck com um delegado soviético. Segundo o depoimento de Dubeck a
Lawrence, esse delegado queria "fazer um acordo com Edmonson". Por quê
com Edmonson e não com Dubeck, que era o presidente da USFC?
Não era apenas porque todos sabiam que quem mandava na USFC era Edmonson. A
questão é que este era quem tinha as ligações subterrâneas, ou seja, com os
órgãos de espionagem norte-americanos. Caso contrário, não poderia saber - como
Dubeck, até então, não sabia - que havia um delegado soviético querendo "fazer
um acordo".
É o que explica que Dubeck acrescente que o obstáculo para realizar o acordo era
a KGB. Segundo ele, o intérprete do delegado soviético era um agente da KGB (no
original, "um reputado assassino da KGB" - para certos norte-americanos, isso é
a mesma coisa que "um agente da KGB"; que diabo estaria fazendo nessa história
um "assassino"? Que utilidade teria? Essa questão não parece ter ocorrido a
Dubeck; mas Edmonson sabia, como veremos, que esse "assassino" servia apenas
para contemplar a fantasia e os escrúpulos de Dubeck - cobrindo um ato de
corrupção com uma capa de ato heróico).
"Edmondson treinou Dubeck sobre o que fazer". Quando se
encontraram com o delegado soviético e seu intérprete, no ponto marcado pelo
primeiro, "Dubeck subitamente puxou o perplexo agente para dentro de uma loja
de roupas, insistindo em obter o conselho do russo sobre uma compra. Não se
preocupe, Edmonson havia dito a Dubeck, é improvável que ele se arrisque a matar
o presidente da USCF. ‘E funcionou’, disse Dubeck a Lawrence, "eu
tirei o agente da KGB do caminho e Ed fez o acordo. Ele foi eleito para a
diretoria da FIDE, e, desde que devia sua posição a nós, seu voto estaria à
disposição mais tarde’". (Al Lawrence, art. cit.).
O que há de verdade nessa história, não sabemos. O ilustrativo nesse relato é o
papel de Edmonson. Qualquer semelhança com um agente da CIA, NSA ou agências
semelhantes não parece ser mera coincidência.
Dubeck não parece um mentiroso. Pelo contrário, o que conta é muito
comprometedor, inclusive para ele, e sempre relata os acontecimentos da maneira
que se esperaria, isto é, naquele estilo algo elíptico que se tornou uma
característica do fariseu norte-americano, e que alguns ingênuos, por mimese,
também acabaram por adotar. Por exemplo, sobre os telegramas que enviou a Max
Euwe (o ex-campeão substituíra Rogard como presidente da FIDE) a respeito da
participação de Fischer: "Alguns deles não eram, devemos dizer, completamente
honestos".
Não há como saber, com os dados disponíveis, se era realmente o suposto
soviético "da KGB" que Edmonson queria afastar, para que pudesse fazer o acordo
com o outro. Pois, se há algo estranho no relato de Dubeck é um soviético que -
em linguagem sem rebuços - queria trair, comparecer a um encontro clandestino
com dois americanos, levando, ou sendo acompanhado ostensivamente, por um agente
da KGB. Quase tão estranho é os dois americanos comparecerem a esse encontro.
Será que o suposto "agente da KGB" era mesmo quem Edmonson queria afastar do
encontro com o delegado soviético? Ou era Dubeck quem ele queria que não tomasse
conhecimento do acordo? Pois o presidente da USCF somente soube do acordo
através de Edmonson. Não estava presente quando foi fechado, pois estava ocupado
em impedir que o suposto "assassino", que mais parecia um dos Três Patetas do
que um agente da KGB, continuasse grudado no delegado soviético... Mas, com esse
ato indômito, para o qual tinha sido "treinado" por Edmonson, também Dubeck
ficou fora do encontro.
Nos parece difícil que um delegado soviético na FIDE votasse contra a posição da
Federação de Xadrez da URSS, assim como qualquer delegado em relação à posição
de sua federação nacional. Mas talvez não fosse necessário: a postura dos
soviéticos já era demasiado conciliadora. Dubeck está se referindo, nesse caso,
a impedir que alguma atitude inusitada de Fischer provocasse sua
desclassificação pela FIDE. Assim, o suborno de um delegado soviético seria uma
tentativa de conseguir uma garantia a mais de que o plano para derrotar a URSS
não viesse por água abaixo devido a alguma atitude antiesportiva do seu próprio
jogador. Além do que, é bom lembrar, os membros da diretoria da FIDE não teriam
tempo de consultar sua federação a respeito de quaisquer questiúnculas
levantadas por Fischer. Sobretudo numa época em que as comunicações de longa
distância eram feitas pelo antigo telefone e pelo telégrafo, eles teriam alguma
autonomia para decidir as várias - e foram inúmeras - questões levantadas.
Sobre isso, é interessante uma observação de Dubeck, em seu depoimento para Al
Lawrence, sobre a atitude do presidente da FIDE: "Ele devia ter
desclassificado Fischer, mas não o fez".
ENTRESSAFRA
Em resumo, o xadrez não parece ter sido, desde cedo, uma área negligenciada pelo
establishment dos EUA no confronto com a URSS.
O que não se sabe - ou, melhor, nós não sabemos - é até que ponto a ação de
Edmonson, no início, estava articulada com escalões mais altos do governo
e dos órgãos de "inteligência" americanos. É possível que tenha sido ele o
primeiro a perceber que os norte-americanos, diante da entressafra que acometia
o xadrez soviético, tinham, afinal, uma chance de golpear o prestígio da URSS
numa área onde ele jamais havia sido abalado, apesar de todas as renitentes
tentativas anteriores.
Mas também é possível que essa situação tenha sido avaliada primeiramente em
nível mais alto. Afinal, entre os 200 mil funcionários que, segundo o Congresso
dos EUA, havia na CIA e órgãos congêneres nessa época, devia haver algum, ou
alguns, que estavam dedicados a analisar a situação no xadrez soviético e podiam
perceber o que estava acontecendo: Botvinnik já havia se retirado das
competições; Keres, Petrosian, Smyslov e Geller não tinham, até pela idade,
condições de se opor a Fischer; Tahl apresentava uma saúde demasiado frágil; e
Korchnoi, cada vez mais histérico, não era um competidor sério.
Porém, havia à disposição dos norte-americanos algo ainda mais concreto do que
essa avaliação geral.
O campeonato soviético de 1969 ocorreu em Moscou, entre 6 de setembro e 12 de
outubro daquele ano. Já o campeonato dos EUA aconteceu em Nova Iorque, de 30 de
novembro a 17 de dezembro. Ambos valiam como torneios zonais, ou seja,
classificavam jogadores do país para o Interzonal de Palma de Mallorca que, por
sua vez, decidiria seis dos candidatos a desafiante de Spassky, além de
Petrosian e de Korchnoi, que já estavam classificados, o último por ter sido
finalista nos matches entre candidatos do campeonato anterior).
Portanto, quando o coronel Edmonson deu a partida para o campeonato
norte-americano, já sabia quem eram os jogadores soviéticos que haviam sido
qualificados para o Interzonal: Smyslov, Polugayevsky, Taimanov e Geller.
O primeiro, pela idade e pelo retrospecto desfavorável (5 derrotas, 5 empates e
apenas uma vitória contra Fischer), não era páreo, sobretudo num match longo,
quanto mais em três matches longos - pois esta era a forma de decidir, após a
abolição do Torneio de Candidatos, quem seria o desafiante do campeão mundial; o
segundo, jamais havia enfrentado Fischer (no Interzonal de Palma de Mallorca,
eles empataram) e, apesar de excelente jogador, dificilmente alguém pensaria em
colocá-lo no mesmo nível do norte-americano; o terceiro, já era considerado um
veterano no final da década de 50 - pelo menos assim o chamou, naquela época,
Vasily Panov, em seu famoso livro sobre as aberturas do xadrez; restava Geller,
um dos três jogadores soviéticos com retrospecto favorável diante de Fischer (ou
outros eram Tahl e o próprio campeão, Boris Spassky). Mas Geller já estava a
caminho dos 50 anos, enquanto Fischer nem havia completado 30. Num match longo,
para não falar em três, essa é uma diferença fatal.
Além dessa avaliação sobre os que concorriam com Fischer, dificilmente os
problemas específicos de Spassky deixaram de merecer atenção nos EUA. Era
público o desconforto de Spassky com a política soviética, sobretudo após os
acontecimentos na Tcheco-eslováquia em 1968, e, desgraçadamente, não porque
fosse partidário de outro caminho para o socialismo. Como outros, apenas
esmagava-se diante da campanha que pintava a URSS como uma tirania e os EUA como
uma democracia, assim como a área de influência do último - aquela coleção de
ditaduras que tão bem conhecemos - como "mundo livre". Em suma, no momento em
que, para enfrentar Fischer, era necessário acreditar que valia a pena defender
a URSS, pois a luta enxadrística havia se transformado numa guerra política, o
melhor jogador soviético, para usar uma expressão moderada, não tinha certeza
sobre isso.
BOBBY
No entanto, o problema de Edmonson e do establishment norte-americano era
Fischer. Apesar da FIDE, depois de suas acusações aos soviéticos em 1962, haver
mudado a forma de disputa do título - e exatamente no sentido que ele havia
proposto – Fischer não disputara mais o campeonato mundial. Não comparecera ao
Interzonal de Amsterdã, em 1964, apesar de estar classificado (foi campeão dos
EUA no ano anterior) e abandonara o Interzonal de Sousse, em 1967 - um escândalo
que rendeu não poucas páginas às revistas de xadrez, causado pela perplexidade:
Fischer estava em primeiro lugar, com um resultado impressionante (em 10
partidas havia ganho sete e empatado três), quando se retirara, mesmo com a FIDE
cedendo às exigências de que sua agenda de jogos – e, portanto, também a de seus
oponentes - estivesse submetida aos dogmas da Igreja Mundial de Deus.
Edmonson não conseguira que Fischer disputasse o Campeonato dos EUA de 1969.
Mas, então, providenciou a esquisita interpretação para inclui-lo no Interzonal
de Palma de Mallorca: se um dos três americanos classificados para o Interzonal
desistisse e os outros jogadores que participaram da final do Campeonato dos EUA
- portanto, suplentes dos classificados - concordassem, isto é, também
desistissem de substituir o desistente, Fischer poderia jogar em Palma de
Mallorca.
Restava apenas convencer Fischer. É nesse momento que a Casa Branca, isto é,
Nixon e, sobretudo, Kissinger, na época Conselheiro de Segurança Nacional,
parecem ter saído dos bastidores e entrado em cena. |
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