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Misérias e glórias do
xadrez (12)
CARLOS LOPES
O espírito de Spassky
durante o match com Fischer pode ser bem aquilatado pela quinta partida
(equivalente à sexta rodada, pois Fischer faltou à segunda). O norte-americano,
que, quando jogava com as brancas, considerava um “princípio” começar pelo
avanço do peão do rei, pela primeira vez na vida preferiu o chamado “gambito da
dama” (a frase exata de Fischer, em seu livro de 1968, “My 60 Memorable Games”,
é: “eu jamais comecei uma partida com o peão da dama – por princípio”).
Era um lance psicológico -
no entanto, não pouco arriscado. Spassky, após seu match de 1969 com Petrosian,
era considerado o maior conhecedor no mundo de uma das variantes dessa linha, a
variante Tartakower (alguns enxadristas a chamam “sistema T.M.B.”, sigla que vem
do nome de seus principais desenvolvedores: Tartakower, Makogonov e Bondarevsky).
Mais do que isso, a reputação de Spassky era a de jamais haver perdido um único
jogo com essa linha (e, até onde pudemos verificar, essa reputação era
justificada).
Por outro lado, em 1968,
em seu livro “My 60 Memorables Games”, comentando sua partida com o iugoslavo
Bertok (ed. cit., pág. 207), Fischer havia publicado uma análise dessa linha - e
a seguiu, na partida de 1972 com Spassky.
Mas, depois de entrar em
sua linha favorita, o campeão escolheu um caminho já refutado, dois anos antes,
por seu compatriota Semyon Furman, em um famoso jogo pelo campeonato soviético.
Era impossível que Spassky não conhecesse essa partida e, mais do que isso, não
conhecesse o estudo que Furman publicou na URSS sobre o tema. Praticamente todas
as revistas soviéticas de xadrez haviam registrado a partida e a análise de
Furman.
Porém, pior ainda, o
oponente que Furman derrotou na partida de 1970 foi Geller, que em Reikjavik
era, exatamente, o principal analista de Spassky. E, naquela altura dos
acontecimentos, Geller também já havia analisado minuciosamente essa partida, em
especial seu erro na 14ª jogada das negras – e descoberto uma alternativa, que
aplicou com sucesso no ano seguinte, contra o holandês Jan Timman.
Mas Spassky, no entanto,
repetiu, em 1972, o erro de Geller em 1970, como se tudo isso não existisse. E,
frisamos mais uma vez, numa linha que era sua favorita – portanto,
presumivelmente, sobretudo em se tratando de um jogador de seu nível, deveria
estar interessado nas novidades a respeito dela, ainda mais quando as análises
foram tão divulgadas.
Evidentemente, Spassky
sabia de tudo isso. Sua derrota nesta partida não foi por ignorância, mas pelo
estado psicológico em que se encontrava – e já na quinta partida, de um match
programado para 24.
O
ERRO
No entanto, o match não
havia começado mal para Spassky. Na primeira partida, um erro de Fischer,
tomando um peão desprotegido, lhe custou uma peça (um bispo) e dera a vitória ao
campeão. Há muita coisa escrita sobre esse erro, aparentemente um erro crasso; a
melhor análise, em nossa opinião, é a do próprio Fischer: segundo ele,
simplesmente calculou errado, achando que o bispo poderia ser salvo depois de
tomar o peão. O importante, aqui, é o motivo desse erro: Fischer, muitas vezes,
tinha dificuldade em resistir a uma aparente vantagem material. Não por acaso,
jogadores dispostos a sacrificar material (isto é, peões e peças) para obter uma
posição melhor, ou um ataque, sempre foram, para ele, seus oponentes mais
difíceis. O exemplo mais evidente é, naturalmente, Mikhail Tahl.
O que é revelador de um
efeito da insegurança de Fischer. Por isso seu “calcanhar de Aquiles” eram as
posições incertas. Ele necessitava estar seguro das seqüências e posições que
surgiriam. Avaliações gerais não eram suficientes para ele. Porém, tanto no
xadrez quanto em qualquer outro campo da vida, muitas vezes é necessário tomar
decisões sem que se esteja completamente seguro da sua correção, e às vezes até
pouco seguro. Era nesses momentos que Fischer tendia a fracassar – inclusive,
como nessa primeira partida do match de 1972, tendia a cometer o que os
americanos chamam de “blunder”, isto é, um erro crasso.
No entanto, muitos diriam
que a posição em que ele cometeu esse erro na primeira partida não era incerta,
mas uma posição empatada. Pelo menos quando jogou – e errou – Fischer,
provavelmente, não tinha essa avaliação. Mas, vamos admiti-la, porque, do ponto
de vista objetivo, ela é verdadeira. Aqui está outra debilidade de Fischer: a
dificuldade em se conformar com situações em que não é possível ganhar. Ele não
tinha problemas em empatar uma partida perdida – v. seus comentários à partida
com Walther, em “My 60 Memorable Games”. Mas, não era tranqüilo diante de
posições realmente empatadas. E, aí, ao forçar uma posição que não podia ganhar,
a possibilidade de erro aumentava, como notou o mestre cubano Eleazar
Jimenez-Zerquera, na análise de sua partida com Fischer na 15ª rodada do
Memorial Capablanca de 1965.
É provável que Spassky
fosse o jogador do mundo em melhores condições, do ponto de vista puramente
enxadrístico, para colocar Fischer diante de situações do tipo das que
mencionamos, em especial as do primeiro tipo. O problema é que não existe o
“puramente enxadrístico”. Pelo menos não em jogos entre seres humanos.
Para vencer Fischer,
Spassky teria que ser outro Spassky. Não outro enxadrista, mas outra pessoa.
Diante de um oponente convicto – na época – de que era necessário “bater os
russos pela América”, Spassky não estava convencido de que o lado em que estava,
não o enxadrístico, mas o político, era o melhor. Isto, para dizer o mínimo. A
impressão que ele passava – e ainda passa – é que achava o lado em que estava,
pior do que o do seu oponente.
Não era verdade, mas isso,
também, não é culpa de Spassky – ou, pelo menos, não é somente, ou inteiramente,
ou fundamentalmente, culpa de Spassky. Afinal, era essa a cultura que vinha se
gestando na URSS desde 1956. Toda a ideologia de “emulação com os EUA” (no
momento em que a URSS estava, depois do Sputinik, tecnologicamente à frente!)
conduzia ao rebaixamento soviético diante dos norte-americanos. E este é apenas
um aspecto secundário da questão: por que, na cabeça de muitos soviéticos como
Spassky, valeria a pena defender um país cuja história, na versão oficial, isto
é, na versão de Kruschev, era uma história de crimes em massa? Somente muitos
anos depois essa versão seria abalada – e, hoje, encontra-se em frangalhos, daí
a nova onda de livros anti-comunistas sobre a história da URSS, que não seriam
necessários, pois apenas repetem os anteriores, se não fosse para tentar
costurar esses frangalhos.
Provavelmente, era pedir
demais a Spassky que percebesse essas coisas, que na época não estavam claras
nem para gente de muito mais responsabilidade do que ele.
Assim, Spassky entrou no
match já derrotado. Não enxadristicamente derrotado, mas ideologicamente
derrotado, numa guerra em que o xadrez era a forma sob a qual se travava uma
batalha ideológica.
MEMORIAL
Pretextando a presença de
câmeras de televisão, Fischer não compareceu à segunda partida do match. Não
voltaremos, aqui, à questão da interferência de Kissinger, já abordada na parte
anterior, nem nos deteremos em todas as miudezas levantadas ou provocadas por
Fischer durante o match. Que Spassky haja se abalado tanto com elas, apenas
demonstra o quanto ele já entrou batido nessa luta.
Para tornar sua situação
mais complicada, houve uma série de desastres na preparação para o match. O
maior deles, em nossa opinião, foi a realização, em novembro de 1971, de um
torneio público, o Memorial Alekhine (logo com esse nome, e nessa hora!) com
alguns dos principais jogadores soviéticos e de outros países – inclusive o
americano Robert Byrne e o islandês Olafsson, conhecido amigo de Fischer. A
atuação de Spassky, que chegou em sexto lugar (aliás, sétimo, pois, pelos
critérios de desempate, Tahl acabou em sexto), somente serviu para fornecer uma
demonstração pública de fraqueza. Mais ainda porque Petrosian, derrotado por
Fischer no mês anterior, ficou em quinto lugar. Se os responsáveis pela
preparação de Spassky queriam espargir um pouco de sangue para estimular o
apetite dos tubarões, dificilmente encontrariam forma melhor. Se queriam esmagar
psicologicamente o próprio jogador que preparavam, também seria quase impossível
idéia mais brilhante.
Não por acaso, o chefe da
preparação de Spassky era Alexander Kotov. Eis uma personalidade muito pouco
abordada nos livros sobre história do xadrez. Já conhecemos (v. parte 6 deste
artigo) o relato de Botvinnik, de como, nas Olimpíadas de Munique, Kotov,
capitão da equipe soviética, tentou impor a ele, então campeão mundial, a
submissão ao desejo americano de que pontuasse em branco contra Reshevsky.
Como jogador, o prestígio
de Kotov era devido principalmente à sua vitória no Interzonal de Estocolmo, em
1952, a maior diferença de um primeiro colocado num Interzonal até que Fischer,
em Palma de Mallorca, batesse o recorde por meio ponto. Mas, no ano seguinte,
ficara em oitavo lugar no Torneio de Candidatos de Zurique, embora tenha sido o
único a ganhar uma partida do vitorioso naquele torneio, Vassily Smyslov.
É verdade que seu
prestígio era sombreado por uma história, segundo a qual tentara subornar o GM
Alexander Tolush no campeonato soviético de 1945, não conseguindo o seu intento
– Tolush ganhou a partida contra Kotov, o que fez com que este perdesse o
terceiro lugar (acabou em sexto). Segundo outra versão, teria sido Tolush a
oferecer-se para ser subornado, com o que concordou Kotov, mas não aceitou o
preço - o total do prêmio correspondente ao terceiro lugar. Na duas versões, o
papel de Kotov não é propriamente edificante.
Como autor, Kotov era
responsável pela tentativa - aliás, bem sucedida após 1956 - de reabilitar
Alekhine na URSS, com quatro volumes de uma alentada biografia enxadrística.
Porém, as obras mais
conhecidas de Kotov são “Pense como um Grande Mestre” e “Jogue como um Grande
Mestre”, os dois primeiros volumes de uma trilogia que se encerrou com o menos
conhecido “Treine como um Grande Mestre”. Sobre este último livro, não podemos
dar uma opinião, pois não o lemos. Os outros dois nos parecem exemplares daquilo
que Lenin, falando de Bukharin, chamou de “pensamento escolástico”, ou seja, não
dialético. Se os GMs raciocinassem apenas daquela forma, ou essencialmente
daquela forma, o xadrez seria um jogo muito chato. Até mesmo o GM inglês John
Nunn, autor que está mais longe da dialética e do comunismo que Bobby Fischer,
notou a fragilidade da concepção de Kotov (cf. Nunn, “Secrets of Practical
Chess”, Gambit Publications, 1998, págs. 7 e seguintes). Além disso, como
observou um jogador brasileiro, Kotov parece ignorar, e mesmo desprezar, toda a
dimensão psicológica do xadrez, o que não é pouca coisa, em se tratando de um
livro sobre xadrez.
A partir do final da
década de 50, Kotov tornou-se um dos principais dirigentes da Federação de
Xadrez da URSS. Ao que parece, ele deu-se muito bem com as mudanças que
ocorreram no país a partir dessa época.
Como chefe da preparação
de Spassky, ele foi autor de algumas das mais arrogantes e histéricas
declarações dessa época. Mas nada se comparou à idéia de colocar Spassky no
Memorial que homenageava o ídolo de Kotov, Alekhine. Ao que parece – mas disso
não temos certeza, embora nos pareça provável – ele foi um obstáculo a que
Spassky levasse Geller como seu “segundo” para Reikjavik. E, nesse caso, a
escolha de Spassky era inteiramente correta. Aliás, era a melhor possível:
Geller não somente era um dos mais capazes analistas da URSS, respeitado pelo
próprio Botvinnik, como era, também, um dos poucos jogadores que tinham
derrotado Fischer - nada menos do que 5 vezes (contra 3 derrotas e 2 empates), e
conseguira esse resultado jogando sempre as linhas favoritas de Fischer, ou
seja, lutando no terreno do oponente.
KARPOV
Nesse sentido, Spassky foi
capaz, em 1972, de uma partida brilhante, a 13ª do match, onde arrasou Fischer
em 31 movimentos, usando a famosa Variante Gotemburgo da Defesa Siciliana (hoje
conhecida como “variante do peão envenenado”), desenvolvida primeiramente pelos
soviéticos, mas colocada em evidência pelo norte-americano desde 1961.
No entanto, num confronto
que não era fundamentalmente enxadrístico, ganhou o lado mais decidido a
derrotar o outro – Fischer venceu 7 partidas, empatou 11 e perdeu três, uma
delas por W.O., fechando o match na 21ª partida.
Nos anos que se seguiram,
a ascensão de Anatoli Karpov no xadrez mundial, sua vitória em 1974 nos matches
contra Polugayevsky, Spassky e Korchnoi, a série de exigências de Fischer para
disputar o título com Karpov, a aceitação da FIDE de quase todas essas
exigências, e mesmo assim a recusa do campeão em enfrentar o desafiante, são
fatos demasiado conhecidos para que tenhamos de nos debruçar sobre eles.
Não pretendemos analisar
em profundidade os motivos de Fischer para não defender seu título. Faremos
apenas uma observação: em quase todos os relatos sobre essa época, ressalta-se o
medo pânico que Fischer tinha de perder, após a conquista de 1972.
Parece-nos que este medo
existia, como existia antes do título – e, no entanto, nos momentos decisivos,
Fischer sempre conseguiu encontrar forças para superá-lo. Além disso, não nos
parece indiscutível que Karpov estivesse em condições de derrotar Fischer num
match já em 1975. Embora, a verdade é que esta é uma daquelas questões para as
quais cabe o verso de T. S. Eliot: “o que poderia ter sido é abstração”.
Portanto, em nossa
opinião, há outro elemento - que, em geral, é subestimado, e, na maior parte das
vezes, totalmente omitido.
Fischer havia empreendido
a caça ao título, fundamentalmente, para, nas palavras do sutil Henry Kissinger,
“bater os russos pela América”. E ele o tinha feito, não pela América, mas pelo
establishment dos EUA. Três anos depois, é difícil considerar que essa motivação
continuava a existir com a mesma intensidade. Nesse intervalo, houve Watergate,
a queda de Nixon e Kissinger, os escândalos da CIA e a revelação de como os EUA
estavam agindo no Vietnã.
No mesmo intervalo,
Fischer havia se reaproximado da mãe, Regina, que não era propriamente, como já
vimos, uma ardorosa defensora do status quo, muito pelo contrário. Não que tenha
sido Regina a influenciá-lo a não disputar o título. Ao inverso, nos parece que
foi o desencanto de Fischer com o uso de sua conquista pelo establishment, que
fez com que ele se reaproximasse de sua mãe.
Se
Spassky, três anos antes, tinha dúvidas sobre se valia a pena lutar pela URSS,
agora era Fischer que não via grandes razões para empenhar-se em lutar por algo
que já não lhe parecia a mesma coisa daquela época em que recebeu o telefonema
de Kissinger. |
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