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Misérias e glórias do xadrez (15)
CARLOS LOPES
Em julho de 1985, a FIDE
estabeleceu as regras para a nova disputa pelo título: o match entre Karpov e
Kasparov voltaria a ter o número fixo de 24 partidas; em caso de empate, o
campeão manteria o título; e, em caso de derrota, teria direito a um
match-revanche.
Em suma, a solução para o impasse
na disputa pelo título mundial, causado pela regressão às normas de 1927, foi,
simplesmente, voltar às normas elaboradas por Botvinnik e aprovadas pelo
Congresso da FIDE de Paris, em 1949 - regras que haviam, sob pressão
anti-soviética, sido alteradas pela própria FIDE desde 1963 e, especialmente,
desde 1975. Nada poderia demonstrar de forma tão nítida a artificialidade
daquelas mudanças: a FIDE parecia não saber o que fazer, senão repetir o que já
havia sido feito.
Ao contrário do que disse Kasparov,
a decisão não era uma concessão aos soviéticos, isto é, a Karpov. Ele conseguira
o principal: garantir que o novo match começasse do zero, sem levar em
consideração as 48 partidas anteriores. Era sobre Karpov que recaía esse golpe.
Como já mencionamos, ele não pedira a anulação do match anterior – havia sido
explicitamente contra a medida. No entanto, era penalizado com a anulação de
cinco vitórias legítimas e duríssimas.
É verdade que o presidente da FIDE,
Florencio Campomanes, havia, ao dar por terminado o primeiro match, em
fevereiro, adiantado a proposta de que o novo match começasse em 0-0, mas essa
questão dependia de aprovação posterior da entidade.
Apesar de claramente a seu favor,
até hoje Kasparov repete que Campomanes, por pressão dos soviéticos, anulou o
primeiro match para beneficiar Karpov. Pode ser que ele acredite nisso. É comum
os charlatães, mais ainda os charlatães políticos, acreditarem na própria
charlatanice. Porém, é difícil ver Campomanes, homem ligado à ditadura de
Ferdinando Marcos – que, até quando se tornou um estorvo, foi o sustentáculo dos
EUA no cerco à URSS a partir da Ásia - fazendo algo para beneficiar os
soviéticos. Ainda mais com os norte-americanos concordando.
No entanto, não é bom simplificar a
questão, mesmo que não tenhamos, por enquanto, uma explicação completa para ela:
no final do primeiro match, realmente, Karpov estava muito mais desgastado,
física e psiquicamente, do que Kasparov. Este, inclusive, ganhara as duas
últimas partidas. Certamente, esticar ao infinito o match, até exaurir o
oponente, era a tática de Kasparov, não a de Karpov.
ENCERRAMENTO
Como essa é uma questão que até
hoje causa acirradas polêmicas, não poderemos evitar o exame de alguns detalhes.
Após a 47ª partida, jogada em 30 de
janeiro, uma quarta-feira, Karpov pediu um adiamento da próxima, marcada para a
sexta. Nesse dia, 1º de fevereiro de 1985, o presidente da FIDE, Florencio
Campomanes, propôs a Yuri Mamedov, chefe da delegação de Kasparov, que o match
fosse encerrado depois de mais oito partidas. Após esses oito jogos, se ainda
não houvesse uma decisão (ou seja, se nenhum dos jogadores completasse as seis
vitórias), Campomanes propunha a realização de um novo match, com número máximo
de 24 partidas, e score começando em 0-0.
Mamedov disse que ia consultar
Kasparov. Em seguida, Campomanes viajou e o ex-presidente da federação da
Alemanha Ocidental, Alfred Kinzel, também presidente do comitê de recursos do
match, ficou encarregado, pela FIDE, das negociações.
Kasparov recusou a proposta por
causa do risco: bastaria a Karpov vencer uma dessas oito partidas para manter o
título, enquanto ele ainda precisaria vencer quatro delas. Ou seja, era bastante
claro para ele o risco da continuação do match – o que, aliás, não demandava
muita perspicácia. Reparemos que a sua argumentação também serve para a
continuação do match tal como então estava sendo disputado, com número ilimitado
de partidas até que um dos jogadores vencesse seis delas. Tanto num caso quanto
noutro, ele precisaria, após a 47ª partida, vencer mais quatro, enquanto Karpov
precisaria apenas de uma vitória. Mas é evidente que ele notou a tendência da
cúpula da FIDE para realizar outro match, começando em 0-0. Isso, naturalmente,
o livraria de correr o risco ao qual se referiu.
Depois de mais um adiamento, dessa
vez por razões administrativas – o match iria mudar de local - a 48ª partida foi
jogada no dia 8 de fevereiro, outra sexta-feira. Kasparov venceu e pediu um
adiamento da seguinte, que estava marcada para a segunda-feira, dia 11. No
mesmo dia, o presidente da FIDE voltou a Moscou e, por sua iniciativa, a
partida, agora marcada para a quarta-feira, dia 13, foi novamente adiada.
No dia imediatamente posterior,
Campomanes e o árbitro do match, Svetozar Gligoric, reuniram-se com Kasparov
para discutir um pedido do presidente da Federação de Xadrez da URSS, Vitaly
Sevastianov. Este, por sinal, não era um cartola a la Averbakh ou Kotov. Além de
enxadrista, Sevastianov era um cosmonauta, famoso por haver jogado, com Adrian
Nikolayev, a primeira partida de xadrez no espaço sideral - durante a missão da
Soyuz 9, em junho de 1970 -, que durou duas órbitas ao redor da Terra. Era
também engenheiro espacial, um dos projetistas das naves Soyuz e da estação
espacial Salyut e o chefe do treinamento das tripulações espaciais soviéticas.
Em síntese, um homem respeitadíssimo.
Sevastianov pedia um intervalo de
três meses no match, para que os jogadores se recompusessem. Diretamente, isso
dizia respeito, sobretudo, a Karpov. Mas também era um problema das condições
gerais da disputa, ou seja, significava privilegiar a capacidade dos jogadores
no tabuleiro, e não um resultado obtido pela exaustão de um deles.
Obviamente, Kasparov respondeu a
Campomanes e Gligoric que, se Karpov não queria continuar, devia abandonar o
match. Ele interpretara o pedido de Sevastianov como uma fraqueza de Karpov. E
não seria ele quem deixaria de se atirar sobre uma fragilidade do oponente.
Pode ser que, nestes tempos de
vale-tudo monopolista e mercantil, alguns considerem a resposta de Kasparov
muito normal, pois se tratava de uma competição, e ele queria ganhar. No
entanto, tratava-se de uma competição de xadrez, e não de uma competição para
ver quem saía vivo – ou para matar o oponente. Mas essa diferença, realmente,
ele jamais foi capaz de entender. Aliás, sempre fez questão de não entender -
pelo menos, quando achava que quem poderia sair morto era o outro.
Além disso, com a lastimável
exceção de Alekhine, que não primava pela esportividade – nem pela beleza de
caráter - essa nunca foi a tradição do xadrez. Pelo contrário. Xadrez é esporte,
e não uma guerra onde não há limites em relação ao oponente. Para ser exato, até
na guerra existem limites – motivo pelo qual, após a II Guerra, alguns
criminosos foram julgados e enforcados na aprazível cidade alemã de Nuremberg.
Certamente, sempre existiram
jogadores de xadrez que estavam dispostos a tudo para ganhar – e qualquer
enxadrista conhece, pelo menos, um ou outro. Porém, jamais essa conduta foi
incensada como virtude, e sim execrada como lepra moral. Os grandes jogadores,
mesmo Fischer – ver a sua atitude quando Tahl foi hospitalizado, durante o
Interzonal de 1962 – sempre respeitaram esses limites, que são a essência mais
pura do respeito ao adversário e, de resto, ao próprio esporte. Nisso,
realmente, como em relação a muito mais, o único “grande predecessor” de
Kasparov foi Alekhine.
Mas, inclusive por boa fé (mas
principalmente por má-fé - e, entre estes, sobretudo o próprio Kasparov), houve
quem descrevesse essa atitude em relação à proposta da Federação soviética como
um ato de coragem e (cáspite!) até mesmo de heroísmo. Lamentavelmente, isso é
uma bobagem. Somente para pessoas muito simplórias, dessas que acreditam no
equivalente político da mula-sem-cabeça, ou para bajuladores da mídia
reacionária, a URSS era aquela ditadura totalitária pintada pela propaganda da
“guerra fria”. Se fosse, não teria durado mais de 70 anos, vencendo, inclusive,
a máquina de guerra nazista. É verdade que, como em qualquer sociedade, havia
limites, e é verdade que, ainda que confusamente a partir do final da década de
50, os soviéticos percebiam que estavam em meio a uma guerra – e isso
determinava a natureza de boa parte desses limites. Mas Kasparov sabia
perfeitamente que nada lhe aconteceria de muito grave por discordar da Federação
da URSS – no máximo, teria de arcar com as conseqüências que, em qualquer país,
arcam os que discordam publicamente da entidade ou do coletivo de que fazem
parte.
COLETIVO
Porém, era essa noção, a de
coletivo, que lhe faltava - e sempre lhe foi estranha. Ainda mais quando sabia
que contava com o apoio dos inimigos do seu país e do seu povo, como ficou
evidente na conferência de imprensa que Campomanes convocou, no dia 15 de
fevereiro. Assim, suas tendências anti-sociais estavam em plena consonância com
aqueles que há muito tempo queriam destruir a sociedade soviética. Hoje, quase
20 anos depois que a sociedade soviética foi realmente destruída, a questão das
intenções imperialistas já não é mais matéria passível de dúvida ou discussão.
Na verdade, também não era na época, pois essas intenções eram explícitas. Mas
era com essa gente que Kasparov acumpliciava-se.
Porém, ninguém ainda conhecia
muito bem o oponente de Karpov. Na tarde do dia anterior, isto é, 14 de
fevereiro, Campomanes avisou a Mamedov que, como Kasparov recusava um acordo
sobre o encerramento do match, usaria de sua autoridade para terminá-lo. No dia
15, quando o presidente da FIDE começou a ler sua declaração para a imprensa,
Kasparov estava sentado na bancada dos jornalistas estrangeiros.
Estranhamente, Campomanes afirmou,
na declaração, que os dois jogadores estavam de acordo com o encerramento do
match. Provavelmente, achava que a cúpula do xadrez soviético – ou alguma
instância do governo – mandavam em Kasparov, e também em Karpov. Devia ser essa
a idéia que as elites filipinas faziam da URSS... Porém, aberta a entrevista
coletiva, teve que se desmentir. Perguntado pelos jornalistas, disse que havia
se reunido com Karpov pouco antes da conferência de imprensa e que o campeão
estava contra a suspensão, e queria jogar a próxima partida de acordo com a
agenda. Respondendo a outra pergunta, disse que Kasparov também tinha a mesma
posição.
Anatoli Karpov chegou à conferência
de imprensa no meio da entrevista de Campomanes. Ao lado do presidente da FIDE,
confirmou que era contra a decisão e que, se dependesse dele, o match seria
retomado logo. Kasparov, em meio aos enviados e correspondentes estrangeiros,
interpelou Campomanes com a pergunta óbvia: se os dois jogadores queriam
continuar, por que não continuar?
É difícil saber o que ele realmente
queria. Talvez pensasse, após o pedido de Sevastianov e de sua segunda vitória
consecutiva, que Karpov estava nas últimas. Mas não é garantido que fosse esta a
sua principal motivação. Pode ser, também, que, diante do encerramento do match,
apesar da decisão da FIDE não lhe ser desagradável, tenha visto uma oportunidade
de fazer o papel que a mídia estrangeira estava esperando dele... Seja como for,
tanto numa quanto noutra hipótese, uma coisa é certa: era uma encenação para a
mídia. O que ficou bastante claro quando Campomanes sugeriu que se aproveitasse
a presença dos dois jogadores, convidando-os a discutir a questão em outra sala,
a portas fechadas. Kasparov recusou. Mas, depois que Karpov e os dirigentes
mantiveram a reunião e se retiraram, deixando-o só com a imprensa, mudou de
posição e resolveu entrar na sala. Não era possível continuar a encenação sem a
presença dos outros.
O campeão acatou a decisão da FIDE.
O desafiante recusou-se a assinar o acordo que encerrava o match. Nenhum dos
dois poderia adivinhar que o match encerrado era apenas o primeiro de cinco
entre eles, ao fim dos quais jogariam 144 partidas pelo título mundial.
GLIGORIC
Karpov havia feito um esforço quase
sobre-humano. Mais uma vitória e ele fecharia o match, enquanto Kasparov, depois
da 48ª, ainda precisaria vencer três partidas e, ao mesmo tempo, impedir que seu
oponente ganhasse qualquer uma. Em suma, um altíssimo risco.
Do ponto de vista de Karpov, de que
valera o seu esforço? Agora, tudo começaria do zero, com Kasparov tendo suas
cinco derrotas apagadas do score. Não é preciso dizer com quem estava a vantagem
psicológica, que não era pequena. Qualquer um que já tenha disputado uma
competição enxadrística sabe como algo assim pode interferir, e interfere, no
desempenho de um jogador.
Mas as coisas não ficaram por aí.
Em seguida, Kasparov levantou suspeição contra o árbitro do primeiro match, o
iugoslavo Svetozar Gligoric.
Não era qualquer suspeição.
Gligoric havia sido um dos maiores jogadores de todos os tempos. Durante anos,
foi, provavelmente, o melhor jogador fora da URSS – sem dúvida, melhor do que
aqueles que, antes de Fischer, disputavam esse título no ocidente: o
polaco-americano Reshevsky, o polaco-argentino Najdorf e, depois, o dinamarquês
Bent Larsen. Era, além disso, unanimemente considerado um grande teórico e um
grande analista, um dos poucos que era respeitado até por Fischer.
Porém, mais do que suas qualidades
enxadrísticas, Gligoric era (e é, hoje, com 84 anos) um herói da guerra contra o
nazismo, onde lutou na guerrilha iugoslava – os famosos “partisans”, que, na
batalha do Neretva, em 1943, haviam quebrado o moral das divisões alemãs,
italianas e fascistas croatas. O caráter de Gligoric jamais foi matéria de
dúvida ou discussão. Pode-se discordar dele – mas não desrespeitá-lo. Sua
atitude posterior, já idoso, de opor-se ao esquartejamento de seu país, que lhe
causou tanta amargura, somente confirma o que estamos dizendo.
Kasparov, porém, como sabemos, não
era dotado desse tipo de escrúpulo diante de pessoas com estatura moral
imensamente superior. Acusou Gligoric de haver favorecido Karpov. Onde e quando,
ninguém sabe, e a única coisa que Kasparov apresentou contra ele foi sua posição
favorável ao encerramento do primeiro match, que já naquela época apresentava
como uma medida com o exclusivo objetivo de prejudicá-lo. No entanto, que
árbitro de bom senso não seria favorável a acabar com o que parecia uma loucura
interminável?
Apesar desse alarido, Campomanes
anunciou que Gligoric seria o árbitro do novo match. No final de julho, atacado
por Kasparov, o iugoslavo renunciou. A FIDE, numa declaração oficial no dia 6 de
agosto de 1985, não aceitou a renúncia e confirmou Gligoric. Porém, duas semanas
depois, recuou: designou o alemão Lothar Schmid, que havia sido árbitro do match
Fischer-Spassky. Mas, dessa vez, foi Schmid que não aceitou. A FIDE acabou por
nomear dois árbitros: o búlgaro Malchev e o soviético Mikenas – originário da
Lituânia – para se revezarem na função.
O próximo passo foi uma campanha na
mídia fora da URSS. Nunca a mídia ocidental, até então, concedeu tanto espaço
para um jogador supostamente soviético – naturalmente, para atacar um
compatriota muito mais identificado com seu próprio país. Da “Playboy” até o
mais obscuro pasquim reacionário, para não falar da TV, estavam todos à
disposição de um soviético e membro do PCUS...
E, então, na Sala de Concertos
Tchaikovsky, em Moscou, a 3 de setembro de 1985, começou o segundo match entre
Karpov e Kasparov. |
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