Misérias e glórias do xadrez (16)
CARLOS
LOPES
A avaliação de que o
encerramento do primeiro match favoreceu a Kasparov não é somente nossa. Em
artigo publicado pela revista espanhola “Jaque”, o enxadrista e historiador
uruguaio Maiztegui Casas, depois de mencionar que foi o socorro de Botvinnik
que salvou seu “aluno predileto” da derrota, refere-se à atitude do velho
campeão diante da decisão da FIDE: “Sem dúvida, consciente de que o
verdadeiro favorecido naquela decisão era seu aluno (fato que somente se pode
negar por fanatismo ou estupidez), ele apoiou a decisão de Campomanes e levou
Kasparov pela mão até o título mundial” (Lincoln R. Maiztegui Casas,
“Mijaíl Botvínik o la muerte de un superviviente – Un régimen, una escola, un
hombre”).
Devemos o conhecimento deste
artigo a um amigo, Fabrício Teixeira, ex-campeão estadual master do Rio de
Janeiro e ás do xadrez rápido – único grande jogador de partidas de 1 minuto
que conheço. Fabrício, conhecido nas polêmicas da Internet pelo pseudônimo de
Romário, é uma inestimável fonte de informações e documentos sobre a história
do xadrez.
Mas, continua o professor
Maiztegui Casas, sobre a relação entre Kasparov e o maior dos jogadores
soviéticos:
“Kasparov lhe deu o
agradecimento da vaca atolada no pântano [fábula sobre a ingratidão
equivalente à nossa do escorpião]. Quando Botvinnik discordou de alguns
aspectos da sua conduta desportiva, rompeu com ele e dedicou-se a criticá-lo,
vilipendiá-lo e até ridicularizá-lo de maneira permanente.
“No entanto, ninguém foi
capaz de adivinhar a que extremos ele podia chegar. Em uma atitude que
constitui todo um monumento à mesquinhez e à ingratidão, Kasparov se opôs a
que Botvinnik fosse convidado a assistir as Olimpíadas de 1994 em Moscou,
pretendendo que, se ele queria ver as partidas, que pagasse o seu ingresso,
como qualquer um”.
Por desnecessário, não faremos
comentários. Apenas acrescentaremos a informação de que Kasparov foi o
principal organizador dessa Olimpíada, por sinal, a mais caótica de todas
elas. Daí seu poder de determinar ou de vetar quem seria ou não convidado, em
um evento que, oficialmente, era promovido pela FIDE – precisamente, a
entidade contra a qual Kasparov estava abertamente amotinado desde 1993.
Por último, Botvinnik não
esteve lá. Nem Karpov.
MOSCOU
Em 1990, cheguei a Moscou no
mesmo dia em que começava, em Nova Iorque, o quinto match entre Karpov e
Kasparov pelo título mundial. Impressionou-me, imediatamente, como os jovens –
quase todos enxadristas, mais ou menos como no Brasil quase todos os jovens
batem uma bola – torciam por Kasparov. Eles repetiam histórias que já haviam
saído cinco anos antes na imprensa ocidental como se fossem fatos e verdades –
mesmo depois que, em nosso lado do mundo, a destrutiva e empulhadora
autobiografia de Kasparov, “Filho da Mudança”, nas palavras do GM Jonathan
Tisdall, “foi muito eficiente para causar uma lenta, mas crescente onda de
popularidade em direção a Karpov, que continua até hoje” (cf., Seirawan e
Tisdall, “Five Crowns”, I.C.E., 1991 – a edição brasileira, de 2004, é uma
tradução bastante ruim).
Em Moscou, perguntei a Dimitri,
um jovem bastante inteligente – com apenas 20 anos ele dominava bastante bem o
português e tinha um conhecimento extenso, ainda que não muito profundo, da
obra de Lenin e dos clássicos da literatura mundial - porque ele dizia que
Karpov era um protegido da burocracia. Não soube explicar. Karpov era um
protegido porque era óbvio que ele era um protegido.
Que Deus nos livre das coisas
“óbvias”! Em resumo, interpretei depois, aquilo era o que a imprensa dizia e,
portanto, para Dimitri isso era o equivalente da verdade. Aliás, era a própria
verdade.
Não era mais apenas a imprensa
estrangeira que elevava Kasparov a um pedestal mais alto que Capablanca - e,
principalmente, apresentava Karpov como um privilegiado por Brezhnev e outros
dirigentes. A imprensa soviética - que, de facto, já havia deixado de
ser soviética -, também. A rigor, ela repetia o que a outra publicara e
continuava publicando. O que em uma era tentativa de usar um renegado em prol
de seus interesses, na outra era repulsiva bajulação por parte daqueles que,
no socialismo, achavam que o ideal maior de suas vidas era ser capitalistas. A
isso, sob Gorbachev, se denominava “glasnost”. Kasparov, naturalmente, era o
ídolo dessa gente.
Cinco anos antes, em 1985, a
situação não era exatamente essa – mas já era indisfarçável o favorecimento a
Kasparov também na imprensa soviética, o que não era um problema fácil para
Karpov. Até mesmo Botvinnik, quando enfrentou Tahl, havia arfado sob o peso do
apoio da imprensa a um oponente. Petrosian, falecido no ano anterior,
ressentira-se disso durante, praticamente, toda a sua carreira no xadrez. E
Karpov, do ponto de vista tanto ideológico quanto psicológico, não era um
Botvinnik. Nem mesmo era um Petrosian.
No entanto, sua reação,
durante o match, surpreendeu.
Na primeira partida, estava
claramente inseguro. Demorou demais logo no quarto lance, claudicando na
abertura – e, no entanto, estava jogando a Defesa Nimzoíndia, que alguns (por
exemplo, Ludek Pachman, que já foi o autor mais lido entre os enxadristas)
consideram, com alguma razão, a base do xadrez moderno. Na 20ª jogada, não
reconheceu um erro de Kasparov – respondeu a esse erro com outro erro. Logo em
seguida, perdeu um peão – e, com esse peão, a partida.
Na segunda, Karpov conseguiu
evitar a derrota – ou, talvez, o mais correto seja dizer que, devido a seus
erros, Kasparov desperdiçou a vitória, e não passou de um empate. Logo em
seguida, Karpov pediu adiamento da próxima partida, um adiamento muito
precoce, antes que um décimo do match fosse disputado.
A terceira foi um empate em 20
jogadas – por proposta de Kasparov, e aceito pelo campeão.
Mas, quando as previsões em
relação a Karpov já eram as mais pessimistas, na quarta partida ele partiu
para o ataque. Depois de 63 movimentos, com um adiamento pelo meio, ganhou a
partida. O match estava empatado. Na seguinte, conseguiu rechaçar o ataque de
Kasparov e venceu outra vez. Karpov estava, agora, à frente no score. Depois
da quinta partida, derrotado seguidamente duas vezes, foi Kasparov quem pediu
adiamento do próximo jogo.
Seguiram-se 5 empates, mas
Karpov parecia ter-se recomposto.
Porém, na 11ª partida, quando
o jogo estava equilibrado, Karpov cometeu um erro incrível para um Grande
Mestre no 22º lance. Os nervos pareciam falhar no momento decisivo. O match
estava, outra vez, empatado.
Depois de quatro empates,
Kasparov realmente fez um jogo excepcional na 16ª partida, e venceu, depois de
40 movimentos, passando à frente no score. Mas, na 19ª, quando venceu outra
vez, nitidamente foi Karpov que causou sua própria derrota, com mais um erro
muito pouco característico dele.
Foi nesta partida que
Kasparov, ao adiar a continuação, encontrou uma forma de demonstrar seu
desrespeito ao oponente: jogou no tabuleiro o lance que selava no envelope,
isto é, o lance que deveria ser secreto. Não houve medida por parte da
arbitragem – do ponto de vista formal, revelar o próprio lance secreto não era
proibido. Mas era evidente a intenção: passar desdém pela capacidade de
análise do outro jogador, e de sua equipe. Portanto, um atitude anti-esportiva.
Não foi por acaso que ele havia feito uma campanha tão escandalosa para
afastar Gligoric da arbitragem.
Kasparov fez a mesma coisa no
jogo seguinte, também sem protestos (nem isso) do árbitro. Nesta partida,
Karpov tinha uma ligeira vantagem quando foi adiada a continuação, e, quando
retomada, tentou a vitória até o 83º movimento, quando o empate foi
inevitável.
No entanto, na partida que
veio a seguir, foi Kasparov quem fracassou e jogou a vitória pela janela,
devido a um erro no 40º movimento. Outro empate, e ele ainda estava à frente
no score.
Mas a 22ª partida foi,
finalmente, uma vitória típica de Karpov, isto é, uma vitória estratégica.
Assim, ele diminuiu a distância e, com o empate na 23ª partida, a decisão foi
para o último jogo do match. Para manter o título, Karpov precisava ganhar.
Para conquistá-lo, bastava a Kasparov empatar.
A ESCOLHA
Essa última partida condensa
os problemas de Karpov nessa época. A começar pela escolha da abertura.
Certamente, a idéia de abrir com o peão do rei era partir para o ataque desde
o início. Mas, numa partida decisiva, em que se precisa ganhar, isso é uma
temeridade contra um forte jogador tático, como era o caso de Kasparov.
Além disso, é evidente que
esta não é a única forma de atacar – sobretudo quando a força de Karpov sempre
foi alicerçada na estratégia e a debilidade de Kasparov não está na tática. A
abertura que Karpov escolheu facilita os recursos táticos e, sobretudo, as
ameaças táticas, em que seu oponente é muito forte. Ou seja, Karpov escolheu o
terreno do adversário para travar a luta, não o seu terreno.
É possível que essa escolha
tenha sido determinada por considerações psicológicas – Bronstein, em 1951,
surpreendeu Botvinnik ao escolher as linhas favoritas do oponente. Se foi essa
a razão, a avaliação sobre Kasparov estava inteiramente errada e pior ainda
estava a avaliação sobre a situação em que se travava a partida. Daremos um
exemplo clássico, para que o leitor não aficionado em xadrez tenha idéia da
questão a que estamos nos referindo.
Existe uma famosa partida
decisiva de Lasker, travada contra ninguém menos do que Capablanca, em que a
complexidade desses problemas de avaliação psicológica são particularmente
nítidos.
No torneio de St. Petersburg
de 1914, em que participaram todos os grandes jogadores da época – dando
origem ao título de Grande Mestre, como foi mencionado na primeira parte deste
artigo – Capablanca estava à frente de todos, quando, na 18ª rodada, enfrentou
Lasker, então campeão mundial.
Com apenas dois jogos para
completar a tabela (enquanto Capablanca tinha ainda mais três – contra
Tarrasch, Marshall e Alekhine – que, posteriormente, venceu), a única chance
aritmética de Lasker ser o vencedor do torneio era bater Capablanca nessa
partida. Já para o grande jogador cubano, bastava um empate com Lasker para
conquistar o primeiro lugar.
Como Karpov na 24ª partida do
segundo match com Kasparov, Lasker jogava com as brancas, ou seja, iniciava o
jogo. Precisando vencer, e com a vantagem de começar a partida, esperava-se
que ele fosse logo para o ataque. Surpreendentemente, Lasker escolheu uma
linha, a chamada “variante das trocas” da Abertura Ruy López (ou Abertura
Espanhola), conhecida por ser pouco agressiva – a rigor, notória como uma boa
escolha quando o jogador com as brancas queria apenas empatar. No entanto, ele
precisava da vitória – e contra Capablanca!
Demolindo os prognósticos dos
que assistiam ao torneio, Lasker ganhou o jogo – e o primeiro lugar no
torneio, deixando Capablanca em segundo.
Em seu livro “Os Grandes
Mestres do Tabuleiro” (1930), Ricardo Reti, o mestre tcheco que, 10 anos
depois de St. Petersburgo, pôs fim a oito anos de invencibilidade do cubano
(ver a segunda parte deste artigo), analisa a partida de Lasker em 1914 e faz
a seguinte observação:
“Não é admissível que
Lasker considere essa variante como forte (....). Portanto, é preciso supor
que novamente são motivos psicológicos que o induzem a empregar essa variante
em momentos transcendentais. Examinando-se as circunstâncias em que se
encontrava Lasker, conclui-se que ele escolheu essa variante sempre que pôde
supor em seu oponente a intenção de limitar-se a conseguir um empate. Se
jogamos uma partida com a firme intenção de não empreender um ataque e de não
arriscar-se, de só simplificar [ou seja, trocar peças, eliminando-as do
tabuleiro]; se já tomamos de antemão essa determinação, tendo chegado a um
estado de ânimo pacífico; então é muito difícil mudar de intenção durante a
partida e jogar repentinamente com base num acirrado ataque. Porém, é inerente
à 'variante das trocas' que as negras devem jogar no ataque e pela vitória,
não pelo empate, pois, se decidimos pela simplificação, esta conduzirá para
onde as brancas querem: a um final perdido para as negras. Este é o motivo
psicológico pelo qual Lasker adota a 'variante das trocas' em partidas
decisivas, quando acredita que desde o início seu oponente joga com a intenção
de empatar”.
Ou seja, se Capablanca queria,
ao menos, empatar, deveria, diante da linha escolhida por Lasker, ter jogado
pela vitória. Ele não o fez – e perdeu a liderança do torneio, que mantinha
desde seu início, no último momento.
Avaliações psicológicas desse
tipo não são fáceis. Trata-se de escolher o terreno psicológico mais favorável
para si e menos favorável para o oponente. Por isso, determinadas linhas que
teoricamente (ou seja, lógica e matematicamente) são pouco sólidas, continuam
sendo praticadas com sucesso - pois a escolha da linha tem de levar em
consideração não apenas o elemento puramente teórico, ou seja, abstrato, mas a
figura concreta do oponente, seu estilo, conhecimento, preferências, e,
sobretudo, as condições reais em que se trava a partida.
Não parece ter sido por
motivos desse tipo que Karpov, na última partida do segundo match, escolheu
abrir com o peão do rei. Ou, mais exatamente, não parece ter sido em função de
uma avaliação psicológica precisa de Kasparov que a linha de Karpov foi
escolhida. Pelo contrário, a motivação psicológica parece ter sido a oposta –
tentar vencer o oponente em seu campo de batalha favorito, talvez exorcizasse
as ofensas e infâmias que ele, Karpov, vinha sofrendo, diariamente, já havia
mais de um ano.
Infelizmente, esse é um mau
motivo, determinado por uma auto-estima em estado de conservação algo
precário. Kasparov sacrificou dois peões para criar uma posição dificílima, e
Karpov errou, perdendo uma peça, a partida e o título de campeão mundial de
xadrez.
SEVILHA
Não tomaremos o tempo do
leitor com a descrição em minúcias dos cinco matches entre Karpov e Kasparov.
Nem com as mesquinharias, que não foram em número modesto.
Diremos apenas que o
match-revanche, no ano seguinte, seguiu mais ou menos o padrão deste, e que,
na disputa seguinte, Karpov foi outra vez o oponente de Kasparov, que não
conseguiu vencê-lo.
Mas Karpov também não
conseguiu vencer – o match em Sevilha terminou empatado, devido a seus erros.
Na 11ª partida, quando em nenhum momento anterior Kasparov conseguiu estar à
frente do score, houve o que Tisdall, com razão, chamou de “erro gritante” por
parte de Karpov.
Entretanto, na 16ª partida,
Karpov igualou, vencendo de forma brilhante. A partir daí, Kasparov tentou
empatar – se o score se mantivesse igualado até o fim das 24 partidas, ele
manteria o título. Karpov aumentou a pressão, pois precisava de mais uma
vitória e um empate para reconquistar o título. E, realmente, na penúltima
partida, depois de uma jogada brilhante de Karpov, Kasparov ficou em
desvantagem e acabou por cometer um erro crasso. Em situações de pressão, ele
reagia pior do que Karpov. O problema é que, nos cinco matches, foi este que
teve de agüentar a pressão.
Bastava a Karpov, agora,
empatar na partida final. Foi um jogo em que ambos os jogadores tiveram a
vitória e a desperdiçaram. Mas o último erro foi de Karpov, perdendo a partida
e a oportunidade de reconquistar o título.
A partir desse momento –
embora já tenha começado antes – Kasparov voltou-se abertamente contra o que
restava da estrutura do xadrez mundial, construída após a II Guerra. De certa
forma – aliás, de todas as formas – aquela também era uma criação soviética,
com seus freios ao comercialismo, seus limites ao vale-tudo e seus ideais de
uma comunidade mundial.
Sobretudo, a atividade de
Kasparov iria voltar-se contra a escola soviética de xadrez, que não era um
mero estilo de jogar, mas toda uma visão de mundo aplicada ao xadrez, que
tinha por conseqüência uma determinada forma de jogar. Talvez por isso tenha
se tornado tão raivoso em relação ao homem a quem devia a sua formação
enxadrística, Mikhail Botvinnik. Aliás, devia a ele o título de campeão
mundial. Talvez fosse exatamente isso o que ele não podia suportar em
Botvinnik: dever algo a alguém – e, pior ainda, todos saberem o quanto ele
devia. E Botvinnik era, precisamente, o fundador da escola soviética em
xadrez.
Não se tratava apenas de uma
tendência sociopática de querer submeter a tudo e a todos – havia interesses
bem concretos a açulá-lo e condições políticas novas, nas quais seriam muito
úteis as suas tendências anti-sociais. Reagan – ou, melhor, os que usavam esse
decrépito canastrão - já estava em campo. Na URSS, Kasparov foi um dos dois
heróis que eles conseguiram arrumar. O outro era Bóris Yeltsin. Uma dupla
interessante: um sociopata e um alcoólatra.