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Misérias e
glórias do xadrez (2)
CARLOS LOPES
Alguns leitores, uns adeptos do xadrez e outros não,
dirigiram-nos algumas perguntas a respeito da primeira parte
deste artigo. A nossa opinião sobre a maior parte dessas
questões estará no correr do próprio artigo. Mas existem duas
dessas perguntas que merecem uma resposta imediata. Portanto,
antes de voltar a Capablanca - e de como foi organizada a luta
por sua sucessão ao título mundial – faremos um breve
intermezzo.
A
primeira é uma pergunta de leitores que não são enxadristas: o
que é um “gambito”, palavra que utilizamos ao nos referir ao
“gambito Marshall”? Gambito, por definição, é uma troca de
material por tempo. Em suma, é o recurso, existente em várias
aberturas no xadrez, em que um jogador sacrifica um peão (em
certos casos, mais do que um) para tornar seu jogo mais veloz e,
via de regra, realizar um ataque. “Aceitar um gambito” é aceitar
o sacrifício proposto pelo oponente, isto é, tomar o peão que
ele está oferecendo. Naturalmente, aceitar um gambito é sempre
perigoso, exceto se já se conhece – ou se descobre no desenrolar
da partida – a sua refutação, isto é, a seqüência de jogadas que
fazem fracassar a tentativa do oponente. Em um de seus estudos
da década de 60 (“A bust to the King’s Gambit”, 1961), Bobby
Fischer formulou o princípio de que “a única forma de refutar
um gambito é aceitá-lo”, frase repetida por Kasparov, sem
citar o autor original, num dos volumes de “Meus Grandes
Predecessores”. O que essa frase quer dizer é simplesmente que é
impossível ficar em vantagem diante de um gambito, se não
aceitamos correr o risco de aceitá-lo. O melhor, embora o mais
arriscado, geralmente, é tomar o peão oferecido pelo oponente e
buscar a refutação da sua linha de jogo – o que, se a
encontramos, o deixará em desvantagem, tanto material (um peão a
menos), quanto, quase sempre, no que se refere à posição no
tabuleiro. Frisamos que isso é apenas um princípio geral. O
próprio Fischer, em certas situações, recusou gambitos (v., p.
ex., a partida Tomargo-Fischer, NY, 1956).
Para
a nossa história, existe aqui uma curiosidade: Capablanca tinha
um certo desprezo por “jogadores de gambito”. Seu terreno sempre
foi a estratégia do jogo - e a técnica precisa com que
finalizava suas partidas. Os gambitos pertencem a outro campo:
são recursos táticos, e, frequentemente - muito mais ainda na
época de Capablanca - o “jogador de gambitos” tende,
oportunisticamente, a sacrificar a estratégia em prol de um
ganho tático momentâneo.
PREDECESSORES
A
segunda pergunta vem de leitores já enfronhados no xadrez: qual
a nossa opinião sobre “Meus Grandes Predecessores”, de Kasparov?
Trata-se de um livro em cinco volumes sobre todos os campeões
mundiais anteriores a ele – e alguns outros jogadores
importantes - que Kasparov publicou em poucos anos. Essa é,
aliás, a primeira coisa que chama a atenção: o primeiro volume,
com 400 páginas, foi lançado em agosto de 2003; o segundo, com
quase 500 páginas, em janeiro de 2004; no mesmo ano, apenas 10
meses depois, em novembro, foi lançado o terceiro, com mais de
300 páginas; dois meses apenas se passaram até o lançamento do
quarto, com 500 páginas dedicadas a Bobby Fischer, em janeiro de
2005 – por uma tremenda coincidência, exatamente quando Fischer
havia reaparecido na mídia, agora como vilão, e, a pedido do
governo Bush, estava preso no Japão; para encerrar, em março de
2006 ele lançaria o quinto, abordando a contribuição de seu
arqui-rival, Anatoli Karpov, também com 500 páginas. Como ele
conseguiu em tão pouco tempo escrever tanto sobre um período tão
largo – nada menos do que 400 anos? Certamente, ele poderia
dizer que há muito tempo se dedicava à obra. Porém, não há
notícia disso.
Qualquer um que publicasse tanto em tão pouco tempo sobre tanta
coisa – incluindo inúmeras análises de partidas jogadas desde o
século XVII – seria considerado, no mínimo, suspeito de
vigarice, ou, mesmo, mais do que suspeito, um vigarista – aliás,
foi o que disse Fischer, mas, naturalmente, hoje a mídia não se
preocupa mais com as opiniões de Fischer, exceto para
desqualificá-las. O fato é que Kasparov usou um “ghost-writer” -
e, provavelmente, não apenas um – para escrever esses livros. Ou
seja, em boa parte não foram escritos por ele, mas por redatores
que alugou.
Não
nos deteremos na qualidade das análises constantes desses
livros, nos erros grosseiros (alguns corrigidos em edições
posteriores) e nos plágios evidentes. Alguns autores, tanto na
Rússia quanto fora dela, já disseram o suficiente sobre isso e,
de qualquer forma, este não é um artigo somente para
enxadristas.
Porém, é forçoso apontar a sociologia barata que percorre esses
livros do começo ao fim. Não se trata apenas de que essa
pseudo-sociologia é reacionária. É interessante que o
anti-comunista Kasparov, na hora de produzir o que apresentou
como sua magna obra, tenha recorrido a uma caricatura do
marxismo com o sinal político trocado. Pois a sua tese, que nada
tem de original, é que cada campeão mundial – ou, melhor, a
maneira como cada campeão abordou o xadrez - foi expressão do
tempo em que cada um viveu. A partir disso, está liberada a
catadupa de bobagens, pois Kasparov, ou os que escreveram os
livros por ele, nada entendem nem da época atual, nem das épocas
passadas, e nem querem entender. Preferem o rasteiro panfleto
anti-comunista, daqueles em que a CIA é muito mais competente.
Vejamos o seguinte trecho, sobre Mikhail Botvinnik, o maior dos
jogadores soviéticos (e professor de Kasparov durante toda a sua
formação como enxadrista): “O frio, impiedoso estilo do
Patriarca da Escola Soviética de Xadrez, baseado numa profunda
abertura e preparação psicológica – não é isso um símbolo do
poder do regime de Stalin? (....) Ele foi campeão nos anos
iniciais da Guerra Fria, quando o esporte emergiu na arena
política mundial, e foi transformado num instrumento na batalha
ideológica entre o Leste e o Ocidente”. Dito por Kasparov,
que nessa batalha preferiu passar para o outro lado, não deixa
de ser um elogio a Botvinnik, homem ao qual ele tratou com uma
indignidade rara em várias oportunidades. Porém, a “frieza” e
“impiedade” do estilo de Botvinnik são por conta dele, assim
como sua fantasia a respeito da época de Stalin.
Mas,
vejamos este outro trecho, sobre Anatoli Karpov, que além de
campeão mundial durante mais de 10 anos, é até hoje o jogador de
xadrez que venceu maior número de torneios na história: “um
favorito de Brezhnev e um símbolo vivo da ‘estagnação’ – a
última década do regime, quando a URSS invadiu o Afeganistão, e
os dirigentes do partido, escondendo-se atrás do biombo de uma
ideologia decadente, faziam tudo para conseguir o enriquecimento
pessoal. Corrupção, estagnação, cinismo e conformismo – essas
eram as características típicas da realidade soviética no
crepúsculo da era comunista. (....) Mas o Ocidente aceitou a
idéia da coexistência pacífica de dois sistemas (....). Os dois
matches pelo campeonato mundial entre Karpov e Korchnoi (1978 e
1981) são uma excelente ilustração desse período. Korchnoi,
mesmo depois de tornar-se um ocidental e alistar-se no apoio ao
mundo livre, foi incapaz de resistir ao cruel poder da máquina
soviética” [os trechos acima foram traduzidos da edição
norte-americana de “Meus Grandes Predecessores”].
Quase
não são necessários comentários após isso. Korchnoi era (e
continua sendo) um renegado repugnante. Mas perdeu para Karpov
porque este era (e continua sendo) melhor jogador do que ele.
Além da falsificação sobre o período Brezhnev, e da retórica com
marca registrada (“mundo livre”, etc.) é interessante a
reclamação de que “o Ocidente aceitou a idéia da coexistência
pacífica de dois sistemas”. Quando terá sido isso?
É
também sintomática a difamação dos dirigentes da época. Todos
eram assim? Pelo menos um, parece que era: Kasparov, que era
dirigente do Konsomol (Juventude Comunista), aliás, membro do
comitê central da organização, o que não era pouco na URSS. Mas
essa passagem do seu currículo ele omite – prefere posar de
“perseguido” pelos comunistas.
Por
último, uma observação sobre o sentido da coleção de livros de
Kasparov: não há dúvida que o objetivo era puro marketing. Daí o
inédito aparato de mídia, cuja especialidade até então jamais
havia sido a de promover livros sobre xadrez. Mas aí está a
questão: “Meus Grandes Predecessores”, não importa o que digam
os puxa-sacos de Kasparov, é secundariamente um
livro sobre xadrez. Na verdade, é um livro sobre Kasparov. Ou,
mais exatamente, um livro para fabricar uma imagem de Kasparov.
Não por acaso, toda a história do xadrez tem nele um único
objetivo: produzir, ao final e ao cabo, o seu ápice. Afinal, que
outro sentido podem ter as vidas enxadrísticas de Greco,
Philidor, Anderssen, Morphy, Steinitz, Lasker, Capablanca,
Botvinnik, Fischer, Karpov e outros, senão produzir, no final,
um Kasparov? Um de nossos leitores pergunta se não é possível
aprender alguma coisa sobre xadrez lendo “Meus Grandes
Predecessores”. Sim, é possível, leitor. Mas nada que fontes
anteriores e melhores não possam fornecer. Pois Steinitz e
todos que vieram depois, inclusive Fischer, eram excelentes
escritores. O que não se pode dizer de Kasparov – mesmo quando
contrata um redator para os seus livros.
NOVA IORQUE, 1927
Mas
voltemos a Capablanca, que deixamos no ano de 1921, quando
venceu Lasker e tornou-se o novo campeão mundial.
Nos
anos seguintes, sua primazia continuou a afirmar-se. Capablanca
venceu o Torneio de Londres, em 1922, fazendo 13 pontos em 15
possíveis (em xadrez, normalmente, uma vitória numa partida de
torneio ou de match soma 1 ponto, enquanto um empate soma 0,5).
O segundo colocado em Londres, Alexander Alekhine, conseguira
11,5 pontos. Nesse mesmo ano o campeão bateu o recorde de
partidas simultâneas – jogou simultaneamente contra 103
oponentes, ganhando 102 partidas e empatando uma, sem nenhuma
derrota.
Em
1924, em Nova Iorque, no entanto, Capablanca foi o segundo
colocado. Porém, o primeiro foi Lasker, que, com 54 anos,
voltava ao primeiro plano do xadrez internacional. Abaixo de
Capablanca, esteve outra vez Alekhine, prenunciando a batalha
que haveria três anos depois.
Foi
no Torneio de Nova Iorque de 1924 que a série de vitórias
consecutivas de Capablanca, que vinha desde 1916, foi
interrompida – ele foi derrotado em sua partida com o mestre
tchecoslovaco Ricardo Reti, um dos expoentes da escola
“hipermoderna” ou “neo-romântica”, que preconizava um abandono
dos princípios clássicos, em especial da ocupação do centro do
tabuleiro por peões, propondo um controle central através da
ação “à distância” das peças (para o leitor que não é aficionado
do xadrez: habitualmente os enxadristas não se referem aos
peões, que são a infantaria do xadrez, como “peças”; este termo
é reservado, além do rei, para os bispos e cavalos, que são as
“peças menores”, e para as torres e a dama, que são as “peças
maiores”, isto é, a artilharia pesada do xadrez).
Depois de uma vasta discussão sobre os critérios para definir o
desafiante do campeão, Capablanca propôs duas condições: uma
bolsa de US$ 10 mil e a realização de um torneio para apontar o
desafiante.
O
torneio foi realizado em 1927, em Nova Iorque, e reuniu os seis
maiores jogadores do mundo – com exceção, outra vez, de Lasker:
depois de seus 27 anos como campeão, ele, compreensivelmente,
desinteressara-se de disputar outra vez o título.
Foi o
primeiro torneio de candidatos a desafiante do campeão da
história do xadrez. Ou, como precisou Capablanca no ano
seguinte, em uma carta a Alexander Rueb - então presidente da
FIDE, a entidade internacional de xadrez - foi a primeira
tentativa de instituir um torneio de candidatos e acabar com a
regra pela qual o próprio campeão escolhia o desafiante.
Como
todas as idéias incipientes, esta também possuía suas
originalidades. A primeira é que o próprio campeão participaria
do torneio. A segunda é que os jogadores se enfrentariam quatro
vezes, duas jogando com peças brancas e duas jogando com peças
negras (para o leitor que jamais tenha jogado xadrez: as brancas
sempre iniciam a partida, portanto têm a vantagem teórica,
confirmada pelos resultados práticos, de um lance à frente).
Existem poucas palavras adequadas para descrever o que ocorreu
nesse torneio. Talvez seja necessário recorrer ao truculento
verbo “trucidar”. Pois o campeão simplesmente trucidou os
oponentes. Capablanca fez 14 pontos em 20 possíveis, enquanto o
segundo colocado, Alekhine, fez 11,5. No confronto direto,
Capablanca destroçou Alekhine numa das partidas mais famosas da
história. No entanto, nas outras três partidas eles haviam
empatado. Ninguém prestou muita atenção nesse último fato,
porque, no torneio, pelo menos duas vezes, uma das quais contra
o próprio Alekhine, Capablanca aceitou o empate em posição de
superioridade.
QUEDA
O
Torneio de Nova Iorque foi em fevereiro e março de 1927. O match
com o desafiante – Alekhine, o segundo colocado do torneio – foi
marcado para setembro, apenas seis meses depois, em Buenos
Aires.
Havia
muito pouca gente com dúvidas sobre o resultado. Entre os
mestres de xadrez, apenas dois previram a vitória de Alekhine.
Exceto eles, Capablanca era uma unanimidade.
E, no
entanto, ao final da primeira partida, Capablanca havia sido
derrotado por um oponente do qual jamais perdera, o que teve um
impacto psicológico sobre ele que se estendeu por todo o
restante do match.
Ele
previra uma vitória fácil. Tanto assim que concordara com
condições de disputa que somente muito tarde percebeu que
favoreciam o oponente: ganharia quem vencesse seis partidas, o
que transformou o match numa quase interminável maratona que
durou 34 partidas. Numa antecipação de sua estratégia para
enfrentar Capablanca, Alekhine declarou ao partir para Buenos
Aires: “Não sei como vencer Capablanca seis vezes, mas também
não sei como alguém pode vencer Alekhine seis vezes”. Ele
tentaria resolver o “problema Capablanca” de uma forma
inesperada: a solução não era descobrir uma nova linha de jogo,
mas submeter o cubano a uma interminável série de partidas,
quase sempre com a mesma linha.
Capablanca sempre encontrara na vida distrações suficientes para
não transformar o xadrez numa obsessão. Já Alekhine, um ex-nobre
russo que emigrou após a revolução, encontrara no xadrez sua
única afirmação. Era um neurótico – ou coisa pior – daqueles que
se descrevem nas páginas dos livros de psiquiatria. Ganhar em
xadrez para ele era tudo – ou quase, pois não era alguém que
subestimasse o dinheiro.
Em
suma, mal comparando com o atletismo, Capablanca foi a Buenos
Aires para vencer os 100 metros rasos. Mas o que encontrou lá
foi uma corrida de fundo. E este era o terreno de Alekhine.
Daí,
as diferenças na preparação de cada um dos jogadores para o
match. Enquanto Alekhine analisava cada uma das partidas do
campeão, em especial àquelas que o cubano havia vencido contra
ele, Capablanca agiu de seu modo habitual: resolveu fazer um
tour pelo Brasil, jogar simultâneas, receber a hospitalidade de
nosso povo - e, dizem algumas más-línguas, também teria se
dedicado a um importante estudo etnológico comparativo, com o
objetivo de descobrir a diferença entre as mulatas brasileiras e
as cubanas...
Mesmo
assim, depois da derrota na primeira partida e um empate na
segunda, Capablanca igualou o match ao vencer a terceira
partida. Seguiram-se três empates. Na sétima, uma vitória
estupenda, Capablanca ficou em vantagem no placar. Mas, depois
de mais três empates irritantes, perdeu a 11ª e a 12ª.
Seguiram-se mais oito empates e Alekhine venceu a 21ª. Mais oito
empates e Capablanca derrotou Alekhine na 29ª. Mas era tarde. O
esgotamento de Capablanca era tão grande que chegou a aceitar um
empate numa posição tão obviamente ganhadora que a imprensa
radiofônica noticiou sua vitória antes que a partida terminasse.
Simplesmente, ele não havia reconhecido a posição como
ganhadora. E, então, Alekhine arrematou, vencendo a 32ª e a 34ª
partida.
Estava, com a vitória de Alekhine, aberta
a primeira sessão de luta político-ideológica da história do
xadrez. Se o leitor for paciente, é o que veremos na próxima
edição. |
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