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Misérias e glórias do xadrez (4)
CARLOS LOPES
Depois da II Guerra, nenhum outro esporte – admitindo seja um esporte - se
tornou um palco tão acirrado da luta político-ideológica quanto o xadrez. O
que, sem dúvida, tem relação com o imaginário que o cerca, a que já nos
referimos.
Voltemos a 1946, quando, num quarto de hotel no Estoril, Alekhine morria sem
amigos, sem admiradores e sem mulheres, banido dos torneios e competições –
depois de vencido o nazismo, todos preferiam ver a lepra em pessoa no salão
de jogos do que ver Alexander Alekhine circulando por lá.
Muita coisa mudara desde o torneio A.V.R.O, de 1938. A começar pelos dois
desafiantes do campeão apontados por esse torneio. O americano Reuben Fine
não tinha mais o xadrez como interesse principal: era agora um psicanalista,
e não queria mais disputar o título.
Como demonstrou Edward Winter, somente 27 anos
depois, em seu livro sobre a vitória de Fischer, Reuben Fine iria aparecer
com a história de que havia declinado da disputa porque pressentira uma
conspiração soviética para empalmar o título (cf. “Bobby
Fischer’s Conquest of the World’s Chess Championship”, NY, 1973, págs.
4/5), conspiração da qual ele forneceu uma nova versão em 1989, numa
carta para “Chess Life”.
Em fevereiro de 1948, num telegrama à redação da “Chess Review”, Fine disse
outra coisa: que suas “obrigações profissionais” (“professional duties”) o
impediram de disputar o título. Em novembro do mesmo ano, na mesma revista,
ele próprio escreveu que “eu estava trabalhando na minha dissertação de
doutorado. Retirei-me [da disputa] porque não me preocupei em interromper
minha pesquisa”. E, 10 anos depois, em 1958, ele reafirmaria, em seu
livro “Lessons from My Games”: “Na época, eu havia iniciado minha nova
profissão como psicanalista e estava impossibilitado de jogar” (págs.
151/152, cit. por Winter, “Unsolved Chess Mysteries - 9”).
As explicações bamboleantes de Fine não são apenas uma exibição de suas
debilidades de caráter. São também a mostra de como a mal chamada “guerra
fria” interferiu no xadrez. Somente quando Nixon e Kissinger – veremos
depois a importância do último para a questão – chegaram à Casa Branca, é
que Fine inovou os seus motivos para não disputar o campeonato mundial no
imediato pós-guerra.
O outro desafiante apontado pelo A.V.R.O. era o extraordinário jogador
estoniano Paul Keres. Mas agora a Estônia era uma das nações da URSS. Keres
se tornara, portanto, cidadão soviético. E recém escapara de um julgamento,
por ter participado de torneios organizados pelos nazistas durante a
ocupação. Ao contrário do que uma vasta propaganda afirma, Keres jamais
esteve preso, nem nessa época nem depois (v. o artigo do historiador
estoniano – e pouco disposto em relação aos russos - Valter Heuer, “The
Troubled Years of Paul Keres, the Great Silent One”, publicado em “New In
Chess” nº. 4, 1995). Mas é evidente que ele esteve sob investigação após a
guerra.
A argumentação de Keres – que enviou uma carta a Molotov, ministro das
Relações Exteriores – era a de que, estritamente, havia participado dos
torneios promovidos pelos nazistas como jogador, sustentando-se durante a
guerra com essa atividade. Jamais havia, ao contrário de Alekhine, passado
desse limite. Não é inteiramente verdade, pois havia algumas declarações
anti-soviéticas de Keres que foram publicadas pelos nazistas – mas, em
geral, a tônica delas estava mais na independência da Estônia do que em ser
contra a URSS. A questão política é que a Estônia estava ocupada pelos
nazistas e não pelos soviéticos.
Também não é verdade, tal como alguns até hoje afirmam, que Paul Keres só
tenha participado, durante a II Guerra, de torneios realizados em seu país.
Cidades como Munique, Salzburg e Praga não ficam na Estônia. No entanto,
Keres legitimou a vitória de Alekhine nos torneios que os nazistas
organizaram nessas cidades, uma vez que era o único outro grande jogador a
participar dessas promoções. O outros, eram mediocridades hoje esquecidas,
exceto Bogolyubov – que, na época, descia aceleradamente o plano inclinado
da decadência. Mas é necessário ressaltar que Keres recusou-se a disputar um
match pelo campeonato mundial com Alekhine durante a guerra, um match que
somente serviria para a propaganda nazista.
Posteriormente, o maior jogador soviético, Mikhail Botvinnik, faria uma
defesa de Keres. Até por essa razão – embora não somente por ela - é
impressionante que haja grassado a propaganda de que Keres foi impedido por
Stalin de enfrentar Alekhine e, no torneio que decidiu, em 1948, o novo
campeão mundial, foi obrigado a perder para Botvinnik.
O conteúdo dessa propaganda é claro: Botvinnik não teria adquirido sua
predominância sobre os demais por suas qualidades como jogador, mas porque
era um privilegiado de Stalin, que até mesmo mandara a KGB (esta não existia
ainda, mas o rigor histórico não é uma característica da propaganda
anticomunista) obrigar Keres - “com uma arma apontada para a cabeça”, diz um
dos adeptos da tese - a perder para o oponente (cf. Taylor Kingston, “The
Keres-Botvinnik Case: A Survey of the Evidence”, 1998. O autor, um
anticomunista, porém não um estúpido, faz uma ampla revisão do que foi
escrito sobre o assunto. Depois de observar que não há prova, nem base nos
resultados e no transcorrer das partidas, que sustente essa versão - e que
tanto a viúva de Keres, Maria, quanto as pesquisas do estoniano Heuer,
desmentem-na - ele conclui: “Francamente, poucas coisas me dariam mais
prazer do que dizer que Keres, sob todos os aspectos um dos mais gentis
cavalheiros que já avançaram um peão, foi trapaceado pelo mal-humorado
stalinista Botvinnik. Poderia se chegar a isso, mas ainda não foi possível
chegar a tanto [It may yet come to that, but has not quite yet]”. Nos 9
anos que decorreram desde que o artigo de Kingston foi publicado, todos os
arquivos da URSS foram abertos - e nada foi descoberto que corroborasse a
propaganda anticomunista).
Porém, esse tipo de coisa não depende da realidade. Depende da estupidez e
da dominação ideológica que faz com que alguns aceitem a mais absurda
propaganda como se realidade fosse.
1948
A partir de 1941, Botvinnik havia surgido como o maior jogador do mundo. De
certa forma, os soviéticos haviam mudado a forma de se jogar xadrez. Como
observou Andrew Soltis em seu livro sobre Fischer (“Bobby Fischer
Rediscovered”, 2003), os soviéticos desenvolveram a estratégia no sentido de
superar as concepções vigentes na primeira metade do século XX, que tiveram
seu principal expoente em Capablanca – o cuidado em conservar o material (ou
seja, evitando a desvantagem quanto ao número de peças e peões), a abertura
tranqüila, da qual os oponentes saíam iguais ou quase iguais e, em seguida,
o meio-jogo dirigido para obter um final superior. Em vez disso, os
soviéticos começavam a luta mais intensa logo na abertura da partida, mesmo
que fosse necessário temporariamente (ou não) perder algum material e criar
algumas debilidades.
Porém, apesar de banido das competições, a FIDE não destituiu Alekhine do
título, nem mudou a regra pela qual ele, e somente ele, poderia apontar o
seu desafiante. Assim, quando Alekhine morreu, em março de 1946, o título
estava vago. Chegou-se, então, a um acordo para a realização de um torneio
que apontasse o novo campeão. O torneio foi jogado em Haia e Moscou entre os
seis principais jogadores do mundo, que se enfrentaram cinco vezes entre si:
o ex-campeão Max Euwe, os soviéticos Mikhail Botvinnik, Paul Keres e Vassily
Smyslov, o polaco-americano Samuel Reshevsky e o polaco-argentino Miguel
Najdorf – os dois últimos, considerados os melhores do continente americano,
após a retirada de Fine.
Botvinnik venceu amplamente: conquistou 14 pontos em 20 possíveis, três
pontos acima de Smyslov, segundo colocado. Começara um novo período para o
xadrez. Em seguida, foram criadas regras para a disputa do título de
campeão. Haveria torneios zonais, reunindo os países do mundo que eram
membros da FIDE. Os vencedores desses torneios seriam classificados para o
Torneio Interzonal, que apontaria os qualificados para o Torneio de
Candidatos. O vencedor deste enfrentaria o campeão num match pelo título. O
campeão manteria o título em caso de empate neste match e, em caso de
derrota, teria direito a um match-revanche.
Essas novas regras mantiveram-se inalteradas até 1963, quando os
kruschevistas permitiram o primeiro atropelo na disputa. Na época, não
acharam ruim a conseqüência do atropelo: livraram-se de Botvinnik, para eles
um “símbolo do stalinismo”. Mas estavam abrindo a porta do inferno, como se
veria nos anos seguintes.
BOTVINNIK
O novo campeão foi, provavelmente, o mais difamado homem da história do
xadrez. Vimos acima como um autor ocidental, apesar de contestar a acusações
a ele, o descreve como um “mal humorado stalinista”. Por que “mal humorado”?
Somente porque este é o estereótipo que está na cabeça de quem escreve essas
coisas. Sem dúvida, Mikhail Moseievitch Botvinnik era comunista. É um
fenômeno típico dos efeitos da propaganda que os mesmos que acusam Botvinnik
– e os soviéticos – de trapacearem, não discutem o fato, pois é impossível
colocar isso em dúvida, de que ele foi um dos maiores jogadores que já
existiram. Aparentemente, não se importam em admitir as duas coisas ao mesmo
tempo.
Botvinnik não era notável apenas no xadrez. Formado aos 20 anos (1931) em
engenharia elétrica, ele foi um dos pioneiros da eletrônica e, depois, da
informática. Após a conquista do título mundial, interrompeu várias vezes a
sua participação nas competições em função desses interesses profissionais.
Em xadrez, foi o professor de gerações de soviéticos. A escola que fundou,
em Moscou, funcionou durante muito tempo como uma graduação superior para os
jogadores da URSS. Não por acaso, formaram-se lá tanto Karpov quanto
Kasparov – dois campeões mundiais.
Um excelente jogador brasileiro disse uma vez a este autor que considerava o
estilo de Botvinnik “muito humano”. Não poderia haver maior contraste com
isso do que a descrição de Kasparov sobre o “estilo frio, impiedoso” de
Botvinnik (ver a segunda parte deste artigo).
Realmente, há algo no jogo de Botvinnik que é muito bem descrito pela
palavra “humano”: ele não faz malabarismos ou ilusionismos no tabuleiro.
Seus planos estratégicos são claros e inteligíveis e seus recursos táticos
jamais se chocam com a estratégia. Como é evidente em seus textos, não se
considera um gênio, mas um esforçado estudioso. Por isso, boa parte de suas
vitórias foram devidas a uma rigorosa preparação anterior ao jogo, levando
sempre em conta as características dos oponentes que ia enfrentar.
Referimo-nos acima ao inventado “caso Keres”. Com ele, o padrão da
propaganda anticomunista foi estabelecido. Embora, pensando bem, não restava
muito a esses propagandistas senão acusarem os soviéticos de trapaceiros. O
que mais podiam fazer, em um esporte onde seus inimigos tinham uma hegemonia
tão grande que, entre 1948 e 1972, todos os campeões e todos os
desafiantes do campeão, foram soviéticos?
Assim, o circo estava pronto para a próxima batalha ideológica –
naturalmente, sem que a anterior fosse jamais encerrada. Não se encerram
batalhas que são travadas, antes de tudo, no plano da fantasia, senão quando
um dos lados deixa de existir. Afinal, até hoje a “Veja” está tentando
passar a figura de Che Guevara como o contrário do que ele foi – e
certamente deve haver ainda uma meia dúzia de idiotas para acreditar...
Em 1948, mesmo ano da conquista de Botvinnik, realizou-se em Saltsjöbaden,
Suécia, o primeiro Torneio Interzonal – etapa do processo para apontar o
próximo desafiante do recém campeão. O soviético David Bronstein conquistou
o primeiro lugar, classificando-se para o Torneio de Candidatos, a ser
realizado em 1950. Nesse torneio, realizado em Budapeste, Bronstein também
saiu vencedor. Era ele, portanto, o desafiante do campeão mundial.
Quando eles se reuniram para disputar o match decisivo, Botvinnik estava há
três anos sem participar de competições, dedicado a seus afazeres
profissionais. E, Bronstein, de todos os jogadores soviéticos, era aquele
que Botvinnik detestava – do ponto de vista político, pessoal e
enxadrístico. Deste último ponto de vista, Bronstein era um jogador
sobretudo tático – o que, para um estrategista que dependia tanto de estudar
e prever antecipadamente o que o oponente faria, é sempre uma dificuldade.
Bronstein era filho de um condenado por envolvimento nas conspirações dos
“kulaks” - a burguesia agrária - contra o Estado soviético. Alguns relatos
afirmam que o pai de Bronstein era um bukharinista ativo na década de 30 –
isto é, um integrante da conspiração direitista de Bukharin, desbaratada em
1937/1938. O fato é que ele foi condenado em 1937 - e colocado em liberdade
condicional em 1944. As histórias posteriores de Bronstein sobre essa época
e seu modo habitual de agir – p. ex., era um desses jogadores que
freqüentemente se referem a si mesmos na terceira pessoa (“então o mestre
decidiu mover tal peça”, etc.) - mostram bastante bem porque ele não
cativava a simpatia de Botvinnik. Apesar de não poder ainda legalmente morar
em Moscou, foi permitido ao pai de Bronstein assistir ao match – o que,
depois, serviu para que seu filho apresentasse essa permissão como uma
tentativa de lembrá-lo do que poderia acontecer se vencesse o match... No
entanto, mesmo no seu livro mais ressentido, “Aprendiz de Feiticeiro” (a
edição inglesa é de 1995), onde chama seu oponente de 1951 de “um deus de
lata da cultura socialista”, ele não se atreve a dizer que foi obrigado a
perder de Botvinnik, embora, talvez, sejam piores as insinuações: “Um
monte de absurdos foi escrito sobre isso. (....) Eu estava sujeito a uma
forte pressão psicológica de várias fontes e cabia a mim render-me ou não a
essa pressão”.
Passaram-se muitos anos até que Kasparov, em “Meus Grandes Predecessores”,
tentasse promover Bronstein a “fundador do xadrez moderno” (sic). Só há uma
razão para essa descoberta histórica de Kasparov: o anticomunismo de
Bronstein. Não há dúvida que Bronstein era um brilhante tático, dos maiores
que já houve. Mas a sua falta de profundidade estratégica sempre lhe foi
fatal em momentos decisivos.
Na URSS, não era crime ser anticomunista, se o cidadão ficasse no terreno
das idéias. O que constituía crime era conspirar contra o Estado – como,
aliás, acontece em todos os tipos de Estado. Assim, a Federação de Xadrez da
URSS forneceu a Bronstein os melhores analistas do país – seus “segundos”,
cuja principal função era analisar as partidas adiadas, foram Boleslavsky,
Furman e Konstantinopolsky. Do mesmo nível era um dos “segundos” de
Botvinnik - seu amigo Salo Flohr. Melhores analistas que estes na URSS, só
havia um: o próprio Botvinnik.
Muito já se escreveu sobre esse match de 24 partidas. Para os objetivos
deste artigo, basta relatar que Bronstein abandonou as linhas de jogo que
usava habitualmente e incorporou as linhas que, notoriamente, eram as
favoritas de Botvinnik. Isso parece ter surpreendido o campeão. A duas
partidas do final do match, Bronstein estava um ponto à frente de Botvinnik.
Precisava apenas de uma vitória – ou de dois empates. Nesse clima começou a
23ª partida. Numa posição ganhadora no 41º lance, Botvinnik adiou a partida,
selando seu 42º lance (ao pedir adiamento da continuação da partida, o
jogador era obrigado a colocar num envelope lacrado o seu próximo lance). No
entanto, Botvinnik selou um lance errado. E, sobretudo depois de conversar
com Salo Flohr, sabia disso. Portanto, no dia seguinte, quando a partida
reiniciou, ele sabia que o máximo que podia fazer era lutar tenazmente por
um empate – o que deixaria Bronstein a meio ponto do título, com apenas uma
partida para o encerramento do match.
Porém, aconteceu uma dessas coisas tão comuns quando os nervos falham nos
momentos decisivos. Apenas um lance depois, quem errou foi Bronstein. E
Botvinnik conseguiu encontrar, sem análise anterior, em pleno tabuleiro da
partida, a jogada ganhadora. Na última partida, Bronstein conseguiria apenas
empatar – mas, com isso, o match estava empatado, e Botvinnik manteve o
título de campeão.
Foi o gatilho para uma enxurrada de panfletos
anticomunistas, sob a forma de artigos, “análises” e livros, que até hoje
perdura. Veremos, na próxima edição, a veracidade dessa produção
interminável. |
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