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Misérias e glórias do
xadrez (6)
CARLOS LOPES
Kasparov parece ter escolhido o local
adequado para iniciar sua campanha a presidente da Rússia: em Washington.
Mestre Hélder Câmara envia-nos a
coluna de xadrez do “Washington Post” - que tem, como titular, Lubomir Kavalek,
GM tcheco-americano. Na segunda-feira, dia 15, o colunista noticia que Kasparov
está em Washington para lançar, no dia seguinte, seu novo livro, “How Life
Imitates Chess” (“Como a Vida Imita o Xadrez”).
O título é bastante sintomático,
inclusive pela estupidez: como pode a vida imitar algo que é parte dela mesma?
Ou será que o xadrez não faz parte da vida? Não é impossível que Kasparov tenha
essa última opinião, uma vez que não sabe o que é a vida, porém o mais provável
é que não se preocupe com essas minudências. No entanto, é evidente porque a
vida tem de imitar o xadrez: para que ele seja presidente da Rússia, assim como
foi campeão em xadrez. Para isso, vale tudo, inclusive publicar livros com
títulos estúpidos.
No entanto, nos parece que ele, mais
uma vez, subestima a inteligência dos outros - nesse caso, dos eleitores russos.
O
lançamento em Washington é, naturalmente, para mostrar aos russos como o autor
é respeitado pelo mundo. Não é uma surpresa que ele confunda o mundo com os
EUA. E, mais ainda, que confunda o incensamento de seu ato de vassalagem com
respeito. O que mostra, apenas, que também não sabe o que é respeito. Mas isso
o leitor poderá comprovar por outros acontecimentos, nas próximas seções do
nosso relato.
O
GOLPE
Voltemos a Botvinnik. No Congresso da
FIDE de 1959, ele, subitamente, tomou conhecimento da campanha que se
desenvolvia “às suas costas”. A questão de abolir o direito do campeão ao
match-revanche não estava na pauta divulgada antes do Congresso, o que era
obrigatório. Também não havia sido discutida na diretoria – e por uma razão que
hoje parece evidente: pelas regras de então, o campeão mundial era membro da
diretoria da FIDE.
Botvinnik parece ter ficado
completamente surpreso quando Folke Rogard, o sueco que presidiu a FIDE por 21
anos (1949-1970), propôs a revogação do direito ao match-revanche. Mais surpreso
ainda deve ter ficado – é o que sugere o tom com que posteriormente abordou a
questão – quando a delegação soviética não se opôs. Rogard, que sempre
considerou um incômodo a hegemonia soviética, havia tentado acabar com o
match-revanche em 1955, durante o Congresso de Gotemburgo. Mas, depois da defesa
de Botvinnik, apoiado pela delegação soviética, a proposta contara com apenas um
voto, além de Rogard. No entanto, algo mudara entre 1955 e 1959...
Não se tratava de um problema de
justiça formal e abstrata (a argumentação era a de que o match-revanche
obrigava um desafiante a ganhar dois matches do antigo detentor do título, em
vez de apenas um).
Concretamente, a medida era
diretamente dirigida contra Botvinnik. Como diria um advogado, faltava a ela a
característica da “impessoalidade”, requerida pelo bom Direito. E não apenas
porque só havia um único jogador sobre a face da Terra que podia reivindicar o
direito que foi abolido.
No centro do método de Botvinnik
estava um rigoroso estudo e uma rigorosa disciplina. Mas ele não era somente um
enxadrista. A idéia – por sinal, monstruosa - de que jogadores de xadrez somente
devem se preocupar com xadrez ainda não havia obtido o beneplácito atual. Ela
seria, alguns anos depois, talvez a pior herança que Fischer deixou ao xadrez.
Mas, em 1959, não era algo que parecesse razoável – como, aliás, não é.
Como todos sabiam, Botvinnik era
também um pesquisador em áreas de fronteira da ciência e da tecnologia. Para
disputar o match com Bronstein, interrompera suas pesquisas sobre geradores
sincrônicos. Para enfrentar Smyslov, tivera que deixar de lado, por longos
meses, o seu trabalho com motores à corrente alternada. Seu trabalho como
pesquisador, em geral, interrompia sua participação em competições, o que não
favorecia sua forma no primeiro match. A revanche era, justamente, sua
oportunidade de dedicar um ano ao estudo do xadrez – e aí retomar o título. Sem
ela, Botvinnik teria que enfrentar um problema a mais – e não era um problema
pequeno, sobretudo na sua idade – para manter o título.
Tanto a extinção desse direito tinha
um alvo certo, que, na hora de efetivar a medida na presença do próprio
Botvinnik, a FIDE acabou por adiá-la: não valeria para a próxima disputa, só
sendo instituída em 1963.
Porém, aqui, é necessário entender
porque a delegação soviética permitiu – e apoiou - um ataque direto à sua maior
glória no xadrez. O problema não se explica apenas pela pressão de jogadores
soviéticos aspirantes ao título, como Botvinnik deixa entender no terceiro
volume de suas “Partidas Selectas”, embora observando que esta pressão “não
era só dos meus colegas”. Também não se explica completamente pelo ódio dos
kruschevistas a todo e qualquer “símbolo do stalinismo”, inclusive Botvinnik,
uma vez que esse atropelo na FIDE era um desprestígio não para Stalin, que já
havia falecido, mas para a URSS e, por conseqüência, para os seus dirigentes
daquela época.
A atitude soviética na FIDE, a partir
da segunda metade da década de 50, era parte daquela política de apaziguamento
em relação aos países imperialistas, sobretudo em relação aos EUA, que se
tornara política oficial na URSS com Kruschev, especialmente após o XX Congresso
do PCUS, em 1956 - e que, levada ao extremo por Gorbachev, acabaria numa
catástrofe.
Não sabemos o grau de consciência a
que Botvinnik chegou sobre a questão, mas é significativo que ele, em suas
memórias publicadas em 1978, se detenha num acontecimento, pouco anterior à
decisão da FIDE, em que isso é claro.
Na
Olimpíada de Xadrez de Munique (1958), os norte-americanos fizeram uma
proposta indecente. Seu primeiro-tabuleiro, Samuel Reshevsky, recusava-se a
jogar aos sábados por motivos religiosos. Assim, eles propuseram aos
soviéticos que seu primeiro-tabuleiro, Botvinnik, também não comparecesse ao
match URSS-EUA. Assim, ambos pontuariam em branco, e a agenda seria cumprida.
O único obstáculo a isso era Botvinnik: “Recusei-me
a pontuar em branco, a despeito da pressão sobre mim do chefe de nossa
delegação, D. Postinikov, e do capitão da equipe, A. Kotov. Eles alegavam
estar com medo de que os americanos ameaçassem parar de jogar na Olimpíada e
retornar para casa. Enquanto nós estávamos discutindo (isso foi no foyer do
Hotel Metropol), o presidente [da
entidade] dos jogadores da Alemanha Ocidental, E. Dehne, estava
sentado próximo. 'Por que vocês têm medo de que os americanos vão embora? Quem
tem que ter medo disso é Dehne, então, consultem-no', eu disse aos meus
superiores. 'Se os americanos querem ir embora, então, que vão', disse o
alemão, de um modo calmo. Obviamente, eu joguei no match contra os EUA!”
(grifo nosso).
TAHL
No mesmo ano em que Smyslov
conquistava o título mundial contra Botvinnik, 1957, o Campeonato Soviético foi
vencido por Mikhail Tahl, um jovem de Riga, Letônia, então com 20 anos.
Tahl foi, provavelmente, o maior
tático e o maior jogador de ataque da história do xadrez. São impressionantes,
até hoje, seus sacrifícios de peças, as soluções que pareciam impossíveis em
determinadas posições e, não menos importante, sua capacidade de ser bem
sucedido em blefar, num jogo que parece pouco propício para isso (o próprio Tahl
descreveu implicitamente essa capacidade, na sua maneira bem humorada: “Há 3
tipos de sacrifícios: os corretos, os incorretos, e os meus”).
Independente de sua solidez, isto é,
da profundidade ou coerência lógica das suas linhas de jogo, as partidas de Tahl
até hoje provocam um prazer estético especial em quem as refaz. Foi com esse
estilo espetacular que ele venceu seis vezes o Campeonato Soviético, marca que
só foi atingida por um outro único jogador, Mikhail Botvinnik.
Em seu livro autobiográfico, no qual
aborda sua experiência como engenheiro, pesquisador e enxadrista, Botvinnik,
sucintamente, destrincha aquilo que nas décadas de 50 e 60 era considerado um
mistério - o estilo “mágico” de Tahl, chamado, por essa razão, “o bruxo de
Riga”: “do ponto de vista da cibernética e da ciência da computação, Mikhail
Tahl é um aparato de processamento de dados, um aparato que possui um banco de
memória maior e uma velocidade de resposta mais rápida do que os de outros
grandes mestres. Isso tem importância decisiva nos casos em que as peças têm
grande mobilidade no tabuleiro. Tahl não estava muito interessado em avaliar
objetivamente a posição em que estava metido. Podia mesmo ser que,
objetivamente, ele ficasse pior ali, mas se somente suas peças estavam móveis,
as ramificações de variantes são tão extensas, tão grande é o número de jogadas
nessas ramificações, que o oponente não podia dar conta delas e a rápida reação
e memória de Tahl falariam mais alto. Essa é a base completa do incomum, do
fantástico jogo de Tahl. Ele é baseado em fatores perfeitamente prosaicos”
(“Achieving the Aim”, pág. 158 – uma nota: traduzimos o termo técnico
“analytical tree” por “ramificações” porque este não é um texto destinado apenas
aos enxadristas).
Mas essa compreensão de Botvinnik
sobre o jogo de Tahl, é forçoso ressaltar, somente apareceu 18 anos após o
primeiro match entre os dois.
Sob alguns aspectos, o jogador letão,
um professor de literatura, era o oposto de Botvinnik: fumante inveterado, mais
do que chegado a um copo, dado ao que chamou de “caça às moças”, indisciplinado
a ponto de escapar à noite da concentração e levar uma garrafada na cabeça numa
boate em Havana, com tendência a jogar para a platéia, desprezando a abordagem
científica em xadrez (“xadrez é arte”), sempre disposto a fazer a tática
sobressair em relação à estratégia. Não por acaso, Smyslov, um estrategista,
disse que o estilo de Tahl “não era mais do que um conjunto de truques”.
Essa não era a opinião de Botvinnik,
que compreendia melhor do que Smyslov a verdade enunciada por Lasker no final do
século XIX: “xadrez é luta”. Se é lícita a comparação, Tahl é o Garrincha do
xadrez (até em certas tiradas eles se parecem: em 1958, um jornalista
perguntou-lhe quando seria campeão do mundo. Resposta: “primeiro preciso
combinar com os outros grandes mestres”). Todos gostavam dele, até mesmo o
próprio Smyslov, e outros jogadores que em tudo eram opostos – foi muito amigo
de seu antípoda perfeito no xadrez, o futuro campeão Tigran Petrosian. Aliás,
até Fischer, o que é quase um milagre, considerando-se a hostilidade deste em
relação aos jogadores soviéticos – e não só aos soviéticos.
Em 1958, além de vencer outra vez o
campeonato da URSS, Tahl venceu o Torneio Interzonal de Portoroz, Iugoslávia,
qualificando-se para o Torneio de Candidatos. No ano seguinte, ele venceria
também esse torneio, e com um resultado espetacular: no confronto direto (os
jogadores disputavam quatro partidas entre si), ele venceu 4 vezes Bobby
Fischer, 2 vezes Smyslov e 3 vezes o iugoslavo Gligoric – provavelmente, na
época, o jogador mais forte fora da URSS. Apenas o segundo colocado, Paul Keres,
conseguiu um score favorável no confronto com Tahl – 3 vitórias e uma derrota.
Desafiante de Botvinnik, venceu-o em
1960 – derrotou o veterano campeão em 6 partidas, perdeu em apenas duas, e
fechou o match já na 21ª partida, três antes do limite de 24 partidas. Era,
depois disso, o mais jovem campeão mundial, até então.
Mas ainda havia o match-revanche. E
Botvinnik, apesar da diferença de idade – 25 anos a favor de Tahl - resolveu
enfrentá-lo. Não possuía toda a compreensão do jogo de Tahl que adquiriu depois,
mas considerou suficiente a que, então, conseguiu chegar. Como escreveu, nas
“Partidas Selectas”: “analisando o encontro sob um enfoque criativo, nosso
[primeiro] match também
proporcionou abundante material para identificar as debilidades de jogo do jovem
campeão. Inclusive quando não estava em consonância com o espírito da posição,
Tahl se esforçava para agudizar o jogo. Lançava-se em posições difíceis, só para
alcançar maior mobilidade para suas peças, com o que podia mostrar sua
capacidade única para o cálculo de variantes, assim como... a falta de tempo do
adversário para pensar as jogadas. Este enfoque utilitário em relação ao xadrez
lhe assegurou êxito, mas a um preço muito alto. Fechou-se em um estilo de jogo
unilateral, estreitou as possibilidades criativas e engendrou a possibilidade de
um futuro fracasso”.
Porém, em 1961, Botvinnik era o único
a fazer esse julgamento. As previsões eram todas a favor de Tahl, um jogador de
quem Fischer disse ao iugoslavo Dimitrije Bjelica: “Pode-se esperar qualquer
coisa de Tahl” (cf. o livro de Bjelica, “Bobby Fischer”, na série
“Kings of Chess”). A imprensa soviética estava toda por Tahl e contra Botvinnik.
Um dos poucos torcedores que este ainda mantinha era Leonid Brezhnev, na época
presidente do Soviet Supremo. Mas, como Brezhnev disse depois a Botvinnik, foi
uma torcida solitária dentro de sua própria casa...
Infelizmente, já nessa época a frágil
saúde do jovem campeão começou a tornar-se um problema. Tahl era portador, ou
era acometido periodicamente, de uma série de doenças, entre as quais um
problema renal que o acompanhou até a morte – ocorrida em junho de 1992, após,
no dia anterior, fugir do hospital, comparecer a um torneio em cadeira de rodas,
e vencer a partida com um brilho que lembrava o jovem do final da década de 50.
Como lembrou, numa entrevista em 2003, sua primeira mulher, Sally Landau, um mês
antes, em outra fuga do hospital, ele havia sido o único a derrotar Kasparov,
então no auge, no Torneio de “Blitz” (partidas rápidas) de Moscou.
Com a notícia de que Tahl estava
doente em Riga, Botvinnik propôs um adiamento, desde que o campeão, de acordo
com as regras, apresentasse um atestado médico. Tahl recusou o adiamento.
Provavelmente, ele sabia, ou sentia, que se tivesse de esperar pela recuperação
completa, nunca mais jogaria xadrez em competições.
O match foi algo espetacular, mas não
à maneira de Tahl. Nesse match, Botvinnik conseguiu aquilo que não conseguira no
match com Bronstein: mostrar como um estrategista pode enfrentar e vencer um
jogador tático – nesse caso, um tático bem maior do que Bronstein.
Simplesmente, ele não deu – ou quase
não deu – oportunidade para que Tahl exercesse seu talento: “eu resolvi jogar
trabalhando em duas direções: (1) aprender com Tahl a como ser um bom e astuto
prático, e, (2) preparar o tipo de aberturas, e, associados a elas, planos de
meio-jogo, em que a luta é de natureza fechada, o tabuleiro é cindido em seções
separadas, as peças não são demasiado móveis. Nunca pensar se a minha posição é
objetivamente pior nesse caso. Pelo menos meu oponente não seria capaz de
explorar sua rápida reação e memória (e
[assim] minha compreensão das posições falaria mais alto)”
(“Achieving the Aim”, pág. 161).
O match
foi no terreno escolhido por Botvinnik – e, nesse terreno, a estratégia, ele
era, realmente, e apesar da idade, superior a Tahl. Com 10 vitórias contra 5,
o match terminou com a recuperação do título – e Botvinnik já estava com 50
anos, uma idade avançada para um campeão mundial.
FISCHER
No Torneio de Candidatos de Curaçao,
em 1962, o armênio Tigran Petrosian saiu vencedor.
Porém, logo que foi encerrado o
Torneio de Curaçao, e antes do match de Petrosian com Botvinnik, a revista
americana “Sports Illustrated”, em agosto de
1962, publicou um artigo que estabeleceria o eixo da campanha anti-soviética no
xadrez pelas décadas seguintes. A força especial do artigo era dada pelo seu
autor, o único jogador americano em condições de enfrentar os melhores jogadores
soviéticos, Robert James Fischer – ou, simplesmente, Bobby Fischer. Por isso, é
necessário que nos detenhamos agora nele – o que faremos na próxima edição. |
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