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Misérias e glórias do xadrez (7)
CARLOS LOPES
O artigo de Fischer, “How the russians fixed world chess” (“Como os
russos fraudam o xadrez mundial”), publicado na “Sports Illustrated” em agosto
de 1962, pode ser resumido rapidamente: durante o Torneio de Candidatos de
Curaçao, realizado dois meses antes, os soviéticos (havia cinco entre os oito
competidores: Tahl, Petrosian, Keres, Geller e Korchnoi) combinavam os
resultados, em geral empatando rapidamente entre si, enquanto jogavam para valer
contra os outros, isto é, contra Fischer (nitidamente, ele não estava muito
preocupado com os outros participantes não-soviéticos: o húngaro-americano Pal
Benko e o tcheco-eslovaco Miroslav Filip. Mas como ninguém achava que o
excelente Filip tivesse chances, muito menos Benko, a questão se resumia,
realmente, a Fischer).
Assim, era através da trapaça que, supostamente, os soviéticos conseguiam vencer
torneios e, sobretudo, manter o título de campeão mundial. Por conseqüência,
essa também era a razão de Fischer não haver saído de Curaçao como o desafiante
de Botvinnik: os soviéticos, isto é, os comunistas, trapacearam para impedi-lo.
Note-se que, pelo menos explicitamente, Fischer não está se queixando de
que os soviéticos se ajudavam mutuamente na análise de suas partidas, o que era
público – e lícito. O próprio Botvinnik, na análise de sua única partida com
Fischer (ocorrida no mesmo ano, na Olimpíada de Varna), declarou que obtivera o
empate numa situação desfavorável, devido a uma idéia de seu colega Efim Geller.
Explicitamente, não é disso que Fischer se queixa – embora esta nos
pareça a verdadeira razão de seu inconformismo, como veremos até o final desta
parte de nosso artigo.
A queixa explícita de Fischer é a de que os soviéticos combinavam seus
resultados, o que não era lícito. Além disso, segundo ele, durante seus jogos os
soviéticos rodeavam a mesa e, ignorando que entendia o idioma russo, davam
sugestões e/ou instruções aos compatriotas que o enfrentavam, e o atrapalhavam
com a tagarelice. Como este problema poderia ser resolvido simplesmente com uma
queixa ao árbitro, não nos deteremos nele – assim como não se detiveram nenhum
dos que apoiaram Fischer, exceto fugazmente.
No entanto, a primeira acusação perdurou por longos anos e, na verdade, ainda
perdura. Ela ainda é, com as copiosas ampliações de Kasparov, uma das bases da
campanha anticomunista – e não apenas no xadrez. Livros e autores que se
pretendem muito sérios, continuam repetindo-a. (v., p. ex., o livro de 2005 do
GM holandês Jan Timman, “Curaçao 1962 - The Battle of Minds That Shook the
Chess World” - e esse autor não é apenas Grande Mestre, mas um ex-candidato
a campeão mundial, e editor-chefe da “New in Chess”, hoje, provavelmente, a mais
lida revista sobre xadrez).
Sobretudo, a acusação de Fischer foi o pretexto para um atropelo geral nas
regras do campeonato mundial. A FIDE, sob pressão norte-americana, acabou com o
Torneio de Candidatos, substituindo-o por matches entre os pretendentes ao
título – ou seja, tratou como verdadeira a acusação.
O problema, evidentemente, não era que as regras não podiam ser alteradas. O
problema é que quando elas são alteradas sob um pré-julgamento contra um dos
lados em disputa – uma disputa que, inclusive, ia bem além do xadrez – e a favor
de outro, está aberto o caminho para que ninguém respeite regra alguma. Assim, a
alteração das regras, que começara com a revogação do direito do campeão ao
match-revanche, deu mais um passo em direção à anarquia que seria alcançada com
a cisão de Kasparov, em 1993.
O pior de tudo, provavelmente, foi que a acusação de Fischer colocou em
defensiva não somente os soviéticos, mas pessoas que estavam bastante longe de
concordar com a propaganda anticomunista. O autor destas linhas deve confessar,
honestamente, que foi um desses.
Mas isso não aconteceu por acaso: mesmo hoje, basta uma releitura do artigo de
Fischer para perceber que o autor não está mentindo, pelo menos não no
sentido em que, em geral, se usa a palavra “mentira”. Ele realmente tinha
convicção no que dizia. Essa é a força maior do texto, pois não é uma
experiência comum para a maioria das pessoas travar contato com alguém convicto,
não de uma crença, mas de um fato, e, ao mesmo tempo, o suposto fato não
ser verdade.
Para dificultar ainda mais a distinção entre fato e fantasia, entrou em cena a
máquina da mídia e dos órgãos governamentais norte-americanos. Pouco tempo
antes, em 1958, o FBI desconfiara que Fischer havia sido recrutado como espião
pelos soviéticos. Agora, haviam conseguido um propagandista ideal, ainda que
inconsciente (ou ideal por causa disso mesmo): alguém que acreditava no que
dizia, e contava uma história, digamos, plausível.
Nessa época, evidentemente, não se sabia que o FBI vigiava a família de Fischer
desde a década de 40. Os documentos referentes a isso somente seriam liberados,
com inúmeras tarjas negras sobre o texto, em 2002.
A última dificuldade foram os desmentidos soviéticos (inclusive os de Keres e
Petrosian), que não ajudaram a elucidar a questão. Eram desmentidos - o que é
outro sinal da defensiva dos soviéticos a partir de Kruschev - genéricos. Não
demoliam ou desmontavam as alegações do oponente – o que, sem dúvida, é o
caminho seguro para a derrota, mesmo quando se está com a verdade, e o
adversário, com a mentira. Se a verdade pudesse se impor somente porque é
verdade - ou seja, sem o esforço dos que estão com ela para desmascarar a
mentira – o nazismo e o macartismo não teriam existido, e o mundo de hoje seria
um maravilhoso Shangri-La. Mas não é assim, sem luta, que as coisas funcionam.
CURAÇAO
Examinemos as alegações.
Em seu artigo, Fischer excetua Tahl da conspiração soviética. Até ele reparou
que incluí-lo transformaria, antes de tudo para si próprio, a acusação num
absurdo. Se há algo que Tahl jamais faria, era, precisamente, combinar um
empate. Além disso, depois de 21 rodadas, ele abandonou o torneio, por motivos
de saúde – e Fischer visitou-o no hospital, sendo recebido de forma muito
amistosa pelo ex-campeão mundial. Portanto, para acreditar na conspiração,
Fischer tinha que colocar Tahl fora dela.
Porém, como observou o enxadrista e escritor holandês Tim Krabbé, também é
necessário excetuar Korchnoi – não exatamente, como diz Krabbé, porque ele
sempre negou, mas por razões políticas e também porque até hoje ninguém
conseguiu incluí-lo nessa história (V. Tim Krabbé, “The legend of the Curaçao
conspiracy”, in “Open Chess Diary”, nota 299, de 22/10/2005).
Com isso, a conspiração fica reduzida ao envolvimento de três jogadores
soviéticos: Petrosian, Keres e Geller. Novamente, como em 1948, é sobre Keres
que se concentra a intriga. Recentemente, buscou-se o apoio de Yuri Averbakh
(coisa, aliás, bastante fácil – v. parte 5 deste artigo) para dizer que “é claro
que foi tudo manipulado” para prejudicar Keres (entrevista de Averbakh para a
Schaaknieuws, cit. por Krabbé).
De onde se conclui que, em Curaçao, 1962, teria existido não apenas uma,
mas duas conspirações soviéticas: uma, com a participação de Keres, contra
Fischer; a segunda, dos outros soviéticos contra o próprio Keres...
Ao leitor que porventura comece a achar, como nós, que essa história é
excessivamente absurda, pedimos um pouco de paciência. Lembremos que a suposta
autoridade de Averbakh, nesse caso, estriba-se no fato de que ele estava em
Curaçao como integrante da delegação soviética. Segundo diz, “os russos” não
queriam Keres como desafiante do campeão, porque era um estoniano, nem Geller,
porque era um ucraniano de origem judaica - portanto, o vencedor, escolhido de
antemão, e favorecido pela trapaça, foi Petrosian.
O problema dessa versão “étnica”, ou, melhor, dessa versão em que os soviéticos
(isto é, os comunistas, ou, “os russos”) trapaceavam por racismo, é que
Petrosian era armênio. “Porque razão um estoniano e um judeu ucraniano
(e o judeu russo Korchnoi!) não eram convenientes e um armênio era, Averbakh
deixou, melancolicamente, de dizer”, observa Krabbé em seu “Open Chess
Diary”.
Nós acrescentaríamos algumas outras perguntas, sobre o que Averbakh “deixou de
dizer”:
1) Por que razão um russo de origem judaica, como Botvinnik, podia ser
campeão do mundo, mas um outro russo de origem judaica, Korchnoi, não podia ser
o seu desafiante?
2) Por que razão, numa época em que o principal dirigente da URSS,
Kruschev, era mais ucraniano que russo, um ucraniano de origem judaica, Geller,
não podia ser o desafiante do campeão?
3) Por que razão uma nação báltica, a Letônia, podia ter um campeão do
mundo, Mikhail Tahl, mas outra nação báltica, a Estônia, não podia ter Paul
Keres como desafiante do campeão?
4) Por último: por que razão um judeu de ascendência alemã – o próprio
Averbakh – podia ser presidente da Federação Soviética de Xadrez, mas ucranianos
e russos de origem judaica, assim como estonianos, não podiam ser desafiantes do
campeão do mundo?
EMPATE
A duas rodadas do fim do torneio, Keres estava em primeiro lugar. Era o virtual
desafiante. Foi então que perdeu, não para um soviético, mas para o americano
Pal Benko. Aliás, Keres somente perdeu duas partidas em Curaçao, ambas para
norte-americanos - Fischer e Benko. Foram essas duas derrotas que o impediram de
ser o desafiante do campeão – as duas, para os únicos jogadores norte-americanos
presentes ao torneio.
Averbakh não diz que Keres perdeu de propósito, até porque isso seria
insustentável diante da partida com Benko, mas afirma que a sua derrota “foi um
alívio” para a delegação soviética, que assim não teria que se expor, recorrendo
a algo mais escandaloso... Portanto, Averbakh está propugnando que a prova de
que existiu a “manipulação”, consiste em que não foi necessário recorrer a ela.
Em bom português (mas em péssima lógica): a prova de que “foi tudo manipulado”
para excluir Keres é que a manipulação não aconteceu, mas aconteceria, se ele
não perdesse para Benko...
Mas, continuemos: uma das provas cruciais apresentadas por Fischer da existência
de uma conspiração soviética contra si é a partida de Keres contra Petrosian, na
25ª rodada. Nessa partida, houve um empate em apenas 14 jogadas, algo, aliás,
nada raro na trajetória de Petrosian – mais ainda, faltando três rodadas para o
final, com os jogadores próximos da exaustão, sobretudo em um torneio no qual
cada um enfrentava 4 vezes o mesmo oponente.
Segundo Fischer (e Timman, no livro de 2005), esse empate prova a sua tese, pois
a partida estava ganha para um dos lados, e, no entanto, eles empataram
rapidamente. Na análise, tanto Fischer quanto Timman procuram demonstrar, o que
parece certo, que a partida estava ganha para as negras.
O problema, como ressaltou o GM inglês Raymond Keene, autor de “Petrosian vs
the Elite” (Batsford, Londres, 2006), é que quem estava jogando com as
negras era Petrosian, e não Keres. Portanto, se Petrosian aceitou ou propôs
o empate, numa posição ganhadora, livrou Keres de uma derrota. Ou seja, o
jogador estoniano foi beneficiado com a suposta conspiração, da qual,
segundo Averbakh, era a vítima. Sobre isso, Krabbé faz outra excelente pergunta:
“Se Petrosian era o indicado para ser o vencedor, e Keres não devia vencer,
então, o que poderia ter sido mais fácil do que fazer Keres perder essa posição
perdida, e dar o ponto a Petrosian?”. Pelo visto, as conspirações dos
comunistas no xadrez eram só para empatar, mesmo que isso livrasse suas vítimas
da derrota...
Entretanto, poderia acontecer que o empate de Petrosian e Keres tivesse o
objetivo de prejudicar Fischer. Aliás, é o que se entende em seu artigo para a
“Sports Illustrated”. Portanto, voltemos, aqui, à primeira conspiração.
Na 25ª rodada, quando foi jogada essa partida, Fischer já não tinha chance
alguma, nem mesmo teórica, de ser o vencedor do torneio. Estava em quarto lugar,
onde permaneceu até o fim do torneio. Já havia perdido para Petrosian, Keres,
Geller (duas vezes), Korchnoi, e até mesmo para o seu naturalizado compatriota,
Pal Benko. À sua frente estavam, e ficaram, precisamente, os três jogadores
soviéticos sobre os quais ele lançou a acusação de trapaça: Petrosian, Keres e
Geller. Logo, resta descobrir os motivos dos soviéticos para conspirar contra
Fischer, a ponto de fraudar uma partida entre seus dois principais jogadores,
numa situação em que o suposto alvo da conspiração já havia saído da pista,
e em um jogo onde, se Petrosian vencesse, ao invés de empatar, aumentaria
mais a diferença a seu favor, em relação ao jogador norte-americano.
Mas, examinemos outra hipótese. Poderia acontecer que Fischer, em algum momento
anterior do torneio, estivesse com chances de ser o vencedor e tenha sido
alijado pela conspiração soviética. No entanto, não foi isso o que ocorreu. No
início do torneio, Fischer estava mal – começou perdendo as duas primeiras
partidas, para Benko e para Geller. Na 14ª rodada, isto é, na exata metade do
torneio, Fischer estava atrás de cinco jogadores soviéticos: Petrosian e Geller,
em primeiro; Keres, em segundo; Korchnoi, em terceiro.
Mais especificamente: os dois primeiros estavam com 9 pontos; o segundo com 8,5;
o terceiro com 8 pontos; e, Fischer, com 7 pontos. A única chance que Fischer
tinha de superar os líderes, era se os soviéticos empatassem entre si. Foi,
precisamente, o que ocorreu. Ou seja, mais uma vez, se a conspiração tivesse
existido, teria sido a favor de Fischer.
A partir daí, o problema de Fischer foi que, mesmo com os empates dos soviéticos
dando-lhe uma chance de ser o vencedor, ele perdeu para Keres (21ª rodada) e,
embora haja vencido Korchnoi e Geller na 19ª e na 23ª rodadas, empatou duas
vezes com Petrosian e também empatou a quarta e última partida tanto com Keres
quanto com Geller. Ou seja, não conseguiu superar os jogadores soviéticos,
exceto Korchnoi.
Reproduzimos a conclusão de Krabbé: “a forma de Fischer não era boa o
suficiente para aproveitar essa vantagem [o empate entre os soviéticos]
em seu benefício. Não há razão para pensar que em Curaçao havia algo além de
que Geller, Keres e Petrosian, tendo grande respeito uns pelos outros, pensaram
em alguns dias de descanso extra, e Petrosian teve mais sorte – ou, talvez,
fosse o mais forte. Fischer nunca foi um problema”.
Porém, não havia sido apenas com os soviéticos que Fischer se chocara em
Curaçao. Na 5ª rodada, Fischer e Benko adiaram a continuação de suas partidas.
Só havia um “segundo” para analisar seus jogos adiados, o GM e ex-campeão
norte-americano Arthur Bisguier, pois a Federação dos EUA não havia liberado
dinheiro para contratar outro.
No dia seguinte, Fischer dirigiu ao comitê organizador do torneio um pedido para
que Benko fosse “penalizado e/ou expulso do torneio”. Transcrevemos a
fundamentação, porque ela é importante para avaliar o grau de maturidade de
Fischer, com 19 anos na época: “Na noite de 9 de maio, um pouco antes da
meia-noite, Benko entrou pelo quarto sem minha permissão (....). Eu
imediatamente pedi a ele para sair e ele recusou-se. Eu repetidamente pedi que
saísse e ele recusou-se a cada pedido. Ele ficou furioso quando recusei-me a
permitir que meu segundo, Arthur Bisguier, o ajudasse a analisar seu adiamento
com Petrosian. Ele insultou-me e, quando eu respondi, atacou-me quando eu estava
sentado numa cadeira. Eu não revidei. Então, finalmente, ele deixou o quarto”
(Hanon W. Russell, “The Fischer-Benko Slapping Incident”).
Posteriormente, Arthur Bisguier exporia o cerne da questão nesse conflito de
Fischer com Benko, o que também esclarece muito a respeito do conflito com os
soviéticos. No fundo, era a mesma questão: “Apesar de que eu expressei minha
disposição de também trabalhar para Benko, Fischer insistiu em que eu fosse
unicamente seu segundo. Sua justificativa era que o Torneio de Candidatos é um
torneio individual, não um evento de equipes, e Benko era outro oponente em
perspectiva”. |
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