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Misérias e glórias do xadrez (8)
CARLOS LOPES
Há um aspecto da
personalidade e da vida de Fischer que foi muito pouco abordado no que se
escreveu sobre ele: sua primeira tendência não foi a de antagonizar os jogadores
soviéticos, mas a de tentar ser aceito por eles. O que é, aliás, coerente com
seu estilo de jogo, desenvolvido a partir das pesquisas enxadrísticas soviéticas
das décadas de 30, 40 e 50. No entanto, essas tentativas de aproximação não
obtiveram sucesso – ou, para ser exato, compreensão. Mas que ele, ao seu jeito,
tentou, não nos parece haver dúvida.
No principal livro de
Fischer, uma coleção de análises das suas partidas “memoráveis” até o fim da
década de 60, há uma breve menção a um episódio significativo: comentando seu
jogo com Arthur Bisguier no campeonato americano de 1963, ele conta que havia
conversado anteriormente com David Bronstein (logo quem!) sobre a 17ª jogada,
uma novidade em relação ao que o seu interlocutor havia jogado em 1953 contra
Samuel Reshevsky, no Torneio de Candidatos, em Zurique: “Quando eu disse a
Bronstein (em Mar del Plata, 1960) que a jogada era um tremendo [tremendous]
melhoramento em relação à sua partida com Reshevsky, ele respondeu: 'Claro.
Depois de sete anos alguém iria achar um melhoramento'” (Fischer, “My 60
Memorable Games”, Simon and Schuster, NY, 1969, pág. 293).
Parece razoável a
resposta, diante da atrevida palavra “tremendo”, usada por Fischer. No entanto,
em 1960, Fischer era um desajeitado (e haja desajeitado nisso) jovem de 17 anos
e Bronstein, com 36, era, desde 1950, um dos maiores jogadores do mundo. Nos
parece evidente que Fischer queria a aprovação de Bronstein - e recebeu um corte
brusco. O fato de que em 1969, quando publicou seu livro, tenha sentido
necessidade de reproduzir, ou não tenha conseguido omitir, uma réplica de nove
anos antes que o reduzia a “alguém”, ou seja, um qualquer, somente nos parece
enfatizar o que acabamos de dizer – e o ressentimento que acumulou com a
rejeição dos soviéticos.
Infelizmente, não foi
apenas Bronstein que tratou mal as tentativas de aproximação do jovem Fischer. O
próprio Botvinnik repete tanto a palavra “arrogante” sempre que se refere a
Fischer, que torna-se nítido que jamais se deteve a pensar no que essa
arrogância significava em termos de insegurança, necessidade de aceitação - e
medo à rejeição. Quanto a Tahl, um dos poucos soviéticos que não parece irritado
com Fischer, a princípio se divertiu bastante com o ridículo do colega, o único
mais jovem que ele entre os Grandes Mestres da época... Mas isso também não
ajudou muito.
MEMORIAL
Devido às implicações
políticas do match Fischer-Spassky, em 1972, da interferência de Kissinger, e da
quase incrível defensiva dos soviéticos, tem-se a tendência a ver o Fischer das
décadas de 60 e 70 apenas como um direitista maluco, instrumento inconsciente do
establishment norte-americano na “guerra fria” - para o que contribuiu, não
pouco, o seu artigo de 1962 na “Sports Illustrated”.
No entanto, a realidade é
(ou foi) mais complexa. Basta ver a sua atitude em relação a Cuba, precisamente
o único país que, no início da década de 60, irritava mais a casta dominante nos
EUA do que a URSS.
Em 1965, Fischer estava
inscrito no Torneio Memorial Capablanca, em Havana. Como aconteceria 27 anos
depois em relação à Iugoslávia, o governo norte-americano proibiu que fosse a
Cuba. Para o establishment, a participação do maior jogador dos EUA num evento
em Havana estava longe de ser um acontecimento alvissareiro. Por outro lado,
considerando o seu temperamento, proibi-lo de viajar era uma temeridade, até
porque as condições políticas para puni-lo não eram as que surgiriam quase
trinta anos depois: Johnson não era Bush (pai ou filho); o Partido Democrata na
Casa Branca não era – e não é – a mesma coisa que o Partido Republicano na Casa
Branca; o movimento pelos direitos civis estava na rua; e já se começava a
gestar a rebelião contra a Guerra do Vietnã; em síntese, os EUA saídos do breve
governo Kennedy não eram os EUA de 1992, após 11 anos de Reagan/Bush.
Foi nesse momento que
entrou em ação o indefectível (nessas horas) “The New
York Times”, com uma suposta notícia em que Fidel Castro capitalizava
politicamente o Memorial.
A “notícia” era uma
fraude, as declarações de Fidel, falsas. Mas Fischer dirigiu ao líder cubano o
seguinte telegrama:
“Primeiro-ministro
Fidel Castro,
“Oponho-me
às suas manifestações, publicadas hoje no 'New York Times', proclamando uma
vitória propagandística, e, por este ato, me retiro do Torneio Capablanca.
Somente voltarei a entrar no torneio se me enviar um telegrama assegurando-me
que você e seu governo não buscam benefícios políticos de minha participação, e
que não se produzirão no futuro mais comentários políticos de sua parte a
respeito da minha participação. Bobby Fischer".
A resposta de Fidel não
se fez esperar:
“Bobby
Fischer, New York, USA.
“Acabo
de receber seu telegrama. Surpreende-me que você me atribua algum tipo de
manifestação referente à sua participação no torneio. A este respeito não disse
nem falei uma palavra com ninguém. Só tenho sobre isso notícias que li em
despachos de agências norte-americanas. Nosso país não tem necessidade de tão
efêmera propaganda. É seu o problema de participar ou não no mencionado torneio.
Suas palavras são, portanto, injustas. Se você se assustou e arrependeu-se de
sua decisão inicial, seria melhor que imaginasse outro pretexto e tivesse o
valor de ser honesto. Dr. Fidel Castro, primeiro-ministro do Governo
Revolucionário”.
Surpreendentemente, logo
depois de receber a mensagem de Fidel, Fischer confirmou sua participação no
Memorial Capablanca e anunciou que, se não podia ir a Havana, jogaria por
teletipo, de Nova Iorque. Em suma, reconhecera a razão de Fidel – e percebera,
de alguma forma e em algum grau, que esse templo da imprensa americana, o “The
New York Times”, tinha algum parentesco com um lupanar.
MARSHALL CLUB
Há um elemento psicológico
importante, revelado por Fischer nesse episódio. Ele não conheceu o pai – e não
porque este houvesse falecido, mas porque foi afastado dele, e já veremos como e
porquê. O pai, falando de forma geral e algo esquemática, para as crianças é o
representante do limite entre a fantasia e a realidade. Se a mãe é o objeto das
fantasias mais primitivas da criança, o pai é aquele que estabelece o limite
dessas fantasias – ou seja, a existência da realidade. Na troca de mensagens
entre Fischer e Fidel, é claro quem estabeleceu esse limite – nesse caso, entre
a falsidade da mídia imperialista, isto é, a fantasia fabricada por interesses
político-ideológicos, e a realidade. O significativo é que Fischer haja reagido
tão bem a este limite “paterno”.
Jogando por teletipo,
Fischer conquistou o segundo lugar no Memorial Capablanca (15 pontos em 21
possíveis), empatado com o iugoslavo Ivkov e com o soviético Geller, a meio
ponto do primeiro colocado, Smyslov. Por teletipo, instalado no Marshall Club,
de Nova Iorque, ele havia furado um bloqueio promovido pelo governo dos EUA – e,
como se sabe, não seria a última vez.
Porém, houve coisa pior
para o establishment: um ano depois, Fischer estaria, em pessoa, na capital
cubana - e amistosamente ao lado de Fidel.
Ele havia conhecido Havana
aos 13 anos, em 1956, quando fazia parte da equipe do Log Cabin Chess Club, de
West Orange, Nova Jersey. Mas, naquela oportunidade, foi acompanhado pela mãe, e
Havana era, então, uma cidade diferente: a capital de um país oprimido pela
ditadura de Batista, pelas multinacionais e bancos norte-americanos - e pela
Máfia.
Já em 1966, com 23 anos,
Fischer era o primeiro-tabuleiro da equipe norte-americana na 17ª Olimpíada de
Xadrez. No dia da abertura da Olimpíada, 25 de outubro, Fidel entrou na sala de
jogos, no hotel Habana Libre. Ele e Fischer apertaram as mãos e, em seguida, o
norte-americano fez algumas piadas sobre a troca de mensagens do ano anterior, o
que foi correspondido com bom humor pelo líder cubano.
Fischer presenteou Fidel
com um de seus livros, devidamente autografado, e, em seguida, disputaram uma
partida “em consulta”, ou seja, em dupla. Fidel fez parceria com o campeão
mundial Tigran Petrosian contra a dupla formada pelo mestre mexicano Filiberto
Terrazas e Fischer. O líder cubano e o campeão mundial venceram a partida.
Note-se que esses
acontecimentos se passaram três e quatro anos após a publicação do artigo
em que acusava os soviéticos de trapaça (v. Barreras Merino, “Fischer y su
vinculación a la Habana”, ext. de “Recorrido del Mundo del Tablero”, em
“Ajedrez en Cuba”, vol. II-11, nº21, 06/1998. O autor foi diretor técnico da
Olimpíada de Havana).
URSS-EUA
A equipe dos EUA foi a
segunda colocada em Havana, graças a Fischer, que venceu 14 partidas, empatou 2
e perdeu apenas uma – para o GM romeno Florin Gheorghiu. Um aproveitamento de
88,2% (15 pontos em 17 possíveis).
A primeira colocada, pela
8ª vez consecutiva, foi a equipe soviética (desde 1952, em 21 Olimpíadas, a URSS
venceu 19; somente não venceu em 1976, quando não foi a Israel, e em 1978,
quando não enviou a melhor equipe a Buenos Aires - e perdeu da Hungria).
Em Havana, o primeiro-tabuleiro
soviético, Tigran Petrosian, foi o único com resultado relativo melhor
que Fischer: fez 11,5 pontos em 13 partidas - 10 vitórias, 3 empates e nenhuma
derrota (aproveitamento de 88,5%). Fischer fez 15 pontos, mas em 17 partidas. A
diferença no número de partidas é devida a que, nas olimpíadas de xadrez, há
tabuleiros-reserva, ou seja, jogadores no banco, que podem jogar em determinados
matches no lugar dos titulares.
Porém, apesar das relações
amistosas entre Fidel e Fischer, a luta política não amainou.
Os EUA, ao
invés de boicotarem a Olimpíada de Havana – como fez, por exemplo, a Alemanha
Ocidental – resolveram enviar seus melhores jogadores. Mas Fischer havia se
convertido a uma seita evangélica que tinha entre seus dogmas um retiro
espiritual que começava às 18 h de sexta-feira e ia até as 18 h de sábado. No
match com a Dinamarca, os norte-americanos reivindicaram que as partidas
começassem às 12 h, ao invés das 16 h, para que Fischer participasse. Os
dinamarqueses recusaram – e também o árbitro-chefe da Olimpíada, Jaroslav
Sajtar. Os norte-americanos tiveram que substituir Fischer pelo
segundo-tabuleiro, Robert Byrne, na partida contra o primeiro-tabuleiro
dinamarquês, Bent Larsen.
Porém, contra a URSS os
norte-americanos não se comportaram com o mesmo respeito às regras. Repetia-se
agora a comédia da Olimpiada de Munique, com uma diferença: Botvinnik não era
mais o primeiro-tabuleiro soviético.
Em suma, os EUA ameaçaram
retirar-se da Olimpíada se o match com a URSS não fosse reagendado. A resposta
do árbitro foi: “de forma alguma”. A equipe dos EUA não apareceu na hora do
match com a URSS, mas não foi embora. O presidente da FIDE, o Folke Rogard que
já vimos em ação na parte 6 deste artigo, propôs que o match que os EUA haviam
perdido por W.O. fosse considerado empatado em 2 a 2. Rogard já passara à fase
do vale-tudo contra os soviéticos - seria o desbravador de uma trilha que
levaria ao esfacelamento do xadrez mundial.
O leitor que vem
acompanhando esta série não terá muita dificuldade em adivinhar o que houve em
seguida: os soviéticos concordaram em disputar outra vez o match. No xadrez, não
havia mais obstáculo – Botvinnik já não estava lá - à política de apaziguamento,
que, no final, conduziria à rendição.
A MÃE
Fischer tinha motivos, não
somente enxadrísticos, mas inclusive familiares, para suas tentativas iniciais
de aproximação com os soviéticos. Teremos de expô-los brevemente, pois Fischer,
de todos os grandes jogadores, é o único que não pode ser descrito sem esse pano
de fundo familiar.
Sua mãe, Regina, esteve
entre aqueles norte-americanos que mudaram-se para a URSS na década de 30 – a
maioria, buscando trabalho e oportunidade de estudar. Foi na URSS que Regina,
depois de entrar para a Faculdade de Medicina, casou-se com Hans Gehardt
Fischer, um biofísico alemão. Em Moscou, nasceu a primeira filha do casal, Joan,
a irmã que depois ensinaria a Bobby o movimento das peças de xadrez.
Sobre algumas polêmicas a
respeito da paternidade de Fischer, entraremos apenas em uma questão, porque ela
extrapola o plano meramente pessoal. Mas, antes, reproduziremos a única
declaração sobre seu pai que conhecemos de Fischer: “Meu pai deixou minha mãe
quando eu tinha dois anos de idade. Eu nunca o vi. Minha mãe somente me disse
que seu nome era Gerhardt e que ele era de origem alemã” (cf., Frank Brady, “In
Defense of Bobby Fischer's Family: House of Cards in the World of Chess”,
ChessCafe, 04/06/2002 – este artigo, do primeiro biógrafo de Fischer, é resposta
a um tardio e debilóide panfleto macartista, “A mãe de Fischer era uma espiã
comunista?”, de um certo Frank Dudley Berry, Jr).
Mas, nos relatórios do
FBI, surgiu o nome de Paul Felix Nemenyi, um físico de origem iugoslava falecido
em 1952, como provável pai de Fischer. Sobre isso, nos parece que o FBI tinha
demasiado interesse em que Nemenyi fosse o pai do filho caçula de Regina. Nessa
época, J. Edgard Hoover (algumas das ordens para vigiar os Fischer vieram
diretamente de seu gabinete) tentava provar que Regina era uma espiã soviética,
apesar da mãe de Fischer trabalhar, modestamente, como enfermeira. No entanto,
Nemenyi, com quem teria se relacionado, fez parte do Projeto Manhattan, que
construiu a primeira bomba atômica. Para o FBI, não seria uma montagem muito
diferente da que fez com o casal Rosenberg – por sinal, como Regina, de origem
judaica e politicamente à esquerda.
Ao que parece, o biofísico
Hans Gehardt Fischer foi impedido, por razões políticas, de viver com a mulher
nos EUA. Ele jamais conseguiu entrar no país, segundo um relatório do FBI (Peter
Nicholas e Clea Benson, “Files reveal how FBI hounded chess king”,
Philadelphia Inquirer, 17/11/2002).
Radicado no Chile, Hans
Gehardt foi visitado pelo filho (então com 16 anos) em 1959, de acordo com
testemunho do mestre chileno Eugenio Larrain, que foi seu cicerone nesta visita
(v. Hélder Câmara, “Bobby 'Ahasverus' Fischer” - em comunicação pessoal,
o autor relatou-nos que a visita de Fischer ao pai foi-lhe confirmada por outro
mestre chileno, Pedro Donoso, homem de integridade indiscutível). Evidentemente,
esse relato é discrepante com a declaração de Fischer transcrita acima. Mas isso
não seria surpresa em quem sempre defendeu tenazmente a sua vida pessoal da
espionagem midiática.
Rapidamente, para que não
tenhamos que voltar aos aspectos familiares de Fischer: sua mãe interrompeu seus
estudos de medicina em 1938; ao voltar para os EUA, sem o marido, aceitou vários
empregos e, por fim, tornou-se enfermeira, sustentando a família dessa forma.
Não há indício de que tenha sido uma mãe relapsa. Pelo contrário: não apenas
sempre foi uma incentivadora de Bobby, como, em 1973, com ele já campeão mundial
mas vivendo em Los Angeles quase em penúria, ela enviou seus cheques da
Seguridade Social para ajudá-lo. Em seu testamento, estabelece que seja entregue
“a meu filho Robert, quaisquer itens que ele possa pedir”.
Como disse Frank Brady,
não apenas biógrafo, mas amigo na adolescência de Fischer, “o coração de Regina
sempre esteve, realmente, do lado esquerdo”. Mais do que isso: ela jamais achou
que devia alguma satisfação ao establishment. Em 1957, por exemplo, ela escreveu
diretamente ao primeiro-secretário do PCUS, Nikita Kruschev, pedindo que
convidasse Bobby para o Festival Mundial da Juventude. Kruschev respondeu,
enviando o convite – que chegou tarde demais para que Bobby viajasse (cf. Bill
Wall, “Robert James (Bobby) Fischer”).
Porém, um ano depois, ele
seria convidado a ir a Moscou, onde esteve com Petrosian – mas queixou-se de que
não conseguiu encontrar-se com outros mestres soviéticos. Foi depois dessa
viagem que o FBI suspeitou que ele fosse um espião recrutado pelos soviéticos.
Fischer tinha 15 anos...
Regina teve uma vida
difícil, perdendo empregos devido às entrevistas que o FBI promovia sobre ela
com vizinhos, colegas e patrões. Mas dedicou-se sempre às causas em que
acreditava. A última anotação, em 1973, nos papéis já conhecidos do FBI, é sobre
sua oposição à Guerra do Vietnã. Nessa época, Fischer já era campeão do mundo.
Mas sua mãe já não era mais enfermeira. Havia, em 1968, realizado o sonho de sua
juventude: formou-se, aos 55 anos, em medicina – pela Universidade Friederich
Schiller, na Alemanha Oriental. Depois, exerceu sua profissão na América
Central. Morreu em 1997, aos 84 anos. Quatro anos antes, aos 85, Hans Gehardt
havia falecido em Berlim.
Agora, voltemos ao match
Petrosian-Botvinnik e aos seus desdobramentos posteriores. O que faremos na
próxima parte de nosso artigo. |
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